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O Globo, Opinião, 11/08/2007:

A nossa garra  

TERESA COSTA D’AMARAL

Começam amanhã os Jogos Parapan-Americanos do Rio de Janeiro.

Quanta distância entre os dois jogos, entre o Pan-Americano e o Parapan-Americano!

Passamos por um momento difícil em nosso país e já não sabemos mais acreditar nem na coisa pública nem na responsabilidade de governantes se unirem em torno do bem comum. Reconheço: o Brasil de hoje mudou meus sonhos. Hoje, eles são compatíveis com a indescritível alegria de poder ver a força e a determinação de uma pessoa com deficiência superar não as suas próprias dificuldades, mas as duras provas impostas pelo preconceito. Mais difícil do que vencer as barreiras dos impedimentos resultantes da deficiência é conviver com o total descaso do Estado brasileiro. A sabedoria delas está em superar as intermináveis negativas de acesso aos direitos humanos mais básicos que recebe todo dia e ser capaz de construir sua cidadania.

Digo isso porque convivo com as mais estarrecedoras formas de preconceito e segregação que nosso país impõe. E é no IBDD que descubro, encantada, as formas ao mesmo tempo personalíssimas e includentes que a maioria dos deficientes constrói para se tornar cidadão.

Mas é com o esporte que minha emoção se liberta da razão, voa livre das amarras da luta diária para construir cidadania em um país tão injusto.

De nada adiantou o descaso da sociedade em fazer o Tenório perder a visão dos dois olhos: ele é meu herói, herói brasileiro com três medalhas de ouro paraolímpicas, uma de cada ano em que competiu. Atlanta, Sydney e Atenas. Existe maior herói do que o Tenório, que vence os problemas de cada dia e vence as lutas de cada competição com a mesma convicção de que assim como o destino foi menos forte que ele, também os adversários não poderão derrubá-lo?

Existe exemplo mais bonito do que o do Caco, que não abriu mão de continuar a acreditar na força do treinamento e na luta por outras vitórias, além da medalha de ouro que trouxe de Atlanta, mesmo quando sua derrota foi a deslealdade de dirigentes? Você, Caco, que foi meu companheiro na única tentativa que fiz, mesmo que indireta, de participar de uma eleição, no desejo de conquistar o Comitê Paraolímpico e a possibilidade de democratizar sua administração.

E o exemplo do Eduardo, que sabe ser herói dos seus companheiros e continuar suave nas relações com a vida – lutando por sua forma física com a mesma tenacidade com que luta pelo amor e pela amizade? Eduardo, como me encanta ser sua amiga, você, que é ídolo e professor de judô de crianças, e elas certamente aprendem com você a construir uma sociedade menos preconceituosa.

E não existe maior exemplo de sabedoria e vitória do que a vida de um por um dos jogadores do futebol de sete, todos atletas campeões, e todos com paralisia cerebral, resultado do destino cruel construído pelo Estado brasileiro através do descaso no atendimento pré, peri e pós-natal. Eles venceram na vida de cada dia essas e outras omissões, como a falta de acesso à saúde e à educação. Treinam três vezes por semana no Aterro do Flamengo, e depois cumprem suas jornadas de trabalho no emprego ou, a maioria, no trabalho informal, porque a sociedade ainda confunde deficiência com incapacidade. Dentre eles falo do Zeca, que ganhou medalha em Atenas e que, encerrada a festa que fizemos para a chegada dos campeões, ia saindo discretamente para levar pelo menos duas horas de ônibus até chegar à sua casa.

E como esquecer a mais bonita imagem de respeito humano que já vi, como não levar para sempre na alma o gesto do Luiz Cláudio de pé, frente à minha mãe morta? Ele, tetraplégico por erro médico no atendimento após o acidente que não o lesionara totalmente. Ele que, mesmo com o diagnóstico de só lhe restar conseguir mexer os olhos, conquistou em arremesso seis medalhas de ouro e um recorde mundial nas duas paraolimpíadas que disputou.

É por isso que torço para que os Jogos Parapan-Americanos mostrem o ideal de beleza e competência de cada pessoa com deficiência, para que com eles possamos encantar os milhões de brasileiros que ainda não conhecem a nossa garra.

TERESA COSTA D’AMARAL é superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD).