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Uma revolução invade a cena lírica
CASSIANO FERNANDEZ
O soprano canadense Measha Brueggergosman não é exatamente o que se considera um soprano comum. Primeiro por seu visual nada convencional e também pelo seu diferenciado repertório. Para comprovar sua notória pré-disposição para chocar as pessoas, fui, na noite de 10 de dezembro assistir a uma apresentação sua que teve lugar na Sala Cecília Meireles. Normalmente, quando se vai a um concerto lírico, espera-se que o soprano esteja vestido de acordo com a idéia convencional, mas, ao que parece, Measha não se sente muito confortável seguindo tais padrões. Seu cabelo estilo black power e seu vestuário pouco convencional (apesar de que na noite do concerto ela vestia um vestido mais ou menos de gala) demonstram que ela veio para criar talvez a nova geração da ópera.
Na noite do concerto, o repertório apresentado também fugiu do convencional, pois ao invés de árias de Verdi, Puccini ou Donizetti, o que se ouviu foram músicas cubanas de cabaré, “As bachianas” de Villa-Lobos e canções gospel. O espetáculo foi muito bem aceito pelo público e, ao final, aplaudido de pé. Como se sairia Measha interpretando um papel como Norma ou Medea? Será que ela exploraria a fundo esses personagens para assim poder inová-los?
Além dela, outros astros e estrelas do mundo lírico chegaram dispostos a tornar esse movimento ainda hoje elitista mais acessível ao público popular. Um bom exemplo é o soprano Anna Netrebko: uma mulher jovem de temperamento descontraído, o que explica sua alta popularidade entre o público igualmente jovem. Anna também é considerada pelos críticos a nova Maria Callas, devendo-se isso não só à sua espetacular presença de palco, potência e elasticidade vocal, mas também porque Anna, ao interpretar Violetta em “La Traviata”, faz exatamente como Maria costumava fazer antes de entoar “Sempre libera”: joga os sapatos longe. Gesto que Maria aprendera com o diretor Luchino Viscontti. O interessante é que Anna, Measha, bem como a maioria dos sopranos da nova geração defendem uma renovação de público, e na minha opinião, isso dará um novo fôlego a esse belíssimo movimento musical. |