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A grande ópera popular
CASSIANO FERNANDEZ
O Carnaval, como o conhecemos, é a maior manifestação popular brasileira, uma verdadeira ópera de dimensões astronômicas. Mas porque a comparação? Qual a relação entre essas manifestações culturais aparentemente tão diferentes? Ou melhor, qual a semelhança ente o samba, o estilo musical do carnaval e o canto operístico? A resposta se torna muito simples, se levarmos em consideração que ambos, cada um a seu modo, se utilizam do mesmo recurso megafônico. Ou seja, da mesma forma que o “puxador” de samba brada o tema de sua escola, a cada ano contagiando cada vez mais os pagantes e convidados que lotam o Sambódromo, o cantor lírico, ao interpretar seus papéis, emite altas e longas notas em meio a uma performance dramática afim de transmitir ao publico presente ao teatro todo sofrimento e mistério contidos no íntimo mais obscuro de seu personagem, com a diferença de que o “puxador” de samba, não se utilizando da técnica respiratória correta e necessária para o canto, coisa que o cantor lírico aprende desde os primeiros anos de conservatório, sacrifica desnecessáriamente a voz.
Na noite de 9 de fevereiro do corrente ano, estive pela primeira vez na “Marquês de Sapucaí” assistindo a um desfile, que foi o “Desfile das Campeãs”, e posso afirmar que este foi o espetáculo mais impressionantemente majestoso do qual já fui testemunha. Mas quais seriam as bases para tal afirmação? Bem, podíamos começar pela enorme quantidade de energia positiva que emana da calorosa platéia que grita, pula, dança, canta e brinca durante todo o desfile e o faz com espantosa e admirável empolgação. O desfile propriamente dito, por sua vez, apresenta dentro de si um outro desfile: o de majestosas e imponentes obras de arte, que são os carros alegóricos e as fantasias usadas pelos integrantes de cada escola. Ao entrarem nas fantasias, os foliões se transformam em personagens dessa magnífica ópera às avessas. Para que entendam o que estou querendo dizer com “ópera às avessas”, vamos a um exemplo: no grande “Teatro alla Scala”, em Milão, considerado o templo do Bel Canto, quando se está assistindo a uma apresentação não é permitido que se tenha no recinto nenhum tipo de distúrbio sonoro, por mais ínfimo que este seja. Já no Carnaval, o que acontece é exatamente o oposto.
Toda essa imensa alegria expressa nesta linda festa me faz lembrar o refrão de “Ah! non giunge”, que é a última ária da ópera “La Sonnambula”, de Vincenzo Bellini, que diz: “Della terra in cui viviamo Ci formiamo un ciel d’amor”. Que traduzindo fica assim: “Da terra em que vivemos formaremos um céu de amor”. Sendo assim, se me pedissem para descrever o Carnaval em uma frase, com certeza seria essa. |