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Jornal Virtual, 03/11/2000:

A grande medalhista

PEDRO DORIA

Das seis medalhas de ouro do Brasil nas Paraolimpíadas, metade têm um nome por trás: Teresa Costa d'Amaral. Superintendente de uma ong chamada IBDD – Instituto Brasileiro de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência – Teresa agora tem outra luta pela frente. Quer que a política brasileira para o deficiente, físico ou mental, mude de rumo e passe a ser mais ativa. Quer que seja fácil a obtenção de próteses através do SUS e que o mercado de trabalho se abra para o deficiente. As quatro medalhas dos atletas do IBDD – a quarta é de prata – são a garantia de que o trabalho é sério. E que começa pelo esporte.

O número de medalhas poderia ser até maior. Uma barbeiragem do Comitê Paraolímpico Brasileiro tirou de Sidney um de nossos melhores nadadores, José Afonso Medeiros, o Caco. As eliminatórias para natação foram marcadas fora do prazo estabelecido pelo Comitê Paraolímpico Internacional. O que seria considerado um absurdo se feito pelo COB passou em branco. Um motivo? Caco, medalhista de ouro em Atlanta, foi um dos derrotados na última eleição para o Comitê. Parte do objetivo do IBDD, agora, é tentar novamente conseguir chegar à presidência em eleições que devem acontecer até o fim do ano. "O Comitê tem uma verba de 5 milhões de reais e esse dinheiro não é gasto com a preparação dos atletas", explica Teresa. Foi gasto, este ano, com passagens para jornalistas, com uma sede luxuosa para a delegação brasileira sem comparação com as dos outros países.

Teresa já trabalhava com deficientes quando foi a uma paraolimpíada pela primeira vez. "Fiquei seduzida, apaixonada", ela diz sem disfarçar a emoção, "a maneira como o esporte leva alegria a eles, é quando você descobre o que é realmente alegria de vida. O Brasil precisa disso." Os medalhistas Ádria Santos (atletismo) e Antônio Tenório da Silva (judô) são apenas alguns dos oito atletas que trabalham no IBDD. Mas se a questão do paraesporte é delicada no Brasil, a política ainda é pior. "Na verdade, não existem nem parâmetros para que tenhamos uma política", ela conta. O IBGE nunca concordou em fazer um censo para conhecer o perfil do deficiente brasileiro, então os únicos dados que os técnicos do governo têm para trabalhar s?o os da ONU/OMS. Em sendo corretos, os números são consideráveis. Dez por cento dos brasileiros, metade destes com deficiência mental, 2% física, 2% auditiva, 0,5% visual e 0,5% com deficiência múltipla.

O problema não é só a falta de dados. A deficiência simplesmente não é encarada como uma questão de saúde, então sobra para o fisiologismo. "Você vê o quê ? é o secretário doando próteses, a primeira dama doando próteses, ninguém concede, não se encara como um direito."

Com a volta dos heróis paraolímpicos, que se mostraram bem mais capazes do que os olímpicos, talvez tenha chegado o momento de alguém ouvir Teresa.

 
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