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Imagem representativa do item: Artigos E o atleta
Jornal: O Globo Rio, 12 de outubro de 2000

Teresa Costa d' Amaral

José Afonso Medeiros é um atleta excelente. Trouxe de Atlanta, em 1996, medalha de ouro em Natação e é recordista mundial nos 50 metros borboleta. Além disso, é engenheiro eletricista de sucesso em Curitiba, onde vive. Quem sabe dando uma outra dimensão a esses dados biográficos, podemos acrescentar que Caco, aos 15 anos, teve uma virose que afetou os músculos de suas duas pernas e hoje ele é portador de deficiência física.

Não traria esse perfil, ao mesmo tempo público e particular, para a publicidade de um artigo de jornal se ele não fosse o enunciado de uma grande indignação de parcela considerável de atletas, participantes do movimento de luta de pessoas portadoras de deficiência, técnicos, familiares e esperemos de muitos outros que a partir de agora passem a conhecer a verdadeira história dos últimos anos do esporte para os portadores de deficiência no nosso país.

Nosso esporte nasceu de um grupo de pessoas que, jogando basquete, correndo, nadando, jogando futebol, juntou-se para buscar organização e profissionalismo em seus treinos e competições. Essa vontade terminou por conseguir alguns apoios pessoais e institucionais e muitas vitórias. Fomos a Seul e Barcelona, o governo tomou parte na organização de nossas delegações, eu mesma, enquanto dirigi a Coordenadoria Nacional, apoiei diversas formas de difusão da prática desportiva, enfim, crescíamos, aumentávamos o número de atletas portadores de deficiência, os clubes nasciam e se fortaleciam. Estávamos ampliando uma nova forma de reabilitação e inclusão social que pode trazer resultados abrangentes para nossa luta.

Essa é a grande jogada. O esporte para portadores de deficiência tem duas vertentes principais de alcance. Uma torna a reabilitação um fazer prazeroso, dá uma nova confiança ao deficiente, fragilizado pelas experiências negativas, através da sua possibilidade de luta, de empenho e auto-disciplina, de vitória e de prazer. A outra conscientiza a população em geral do potencial de eficiência que ele continua tendo, da beleza de seus gestos e de suas conquistas. Mas estão conseguindo destruir o trabalho tão bem iniciado. Por que é sempre assim?

A criação de um Comitê Paraolímpico deu a seus donos um instrumento de poder que vem sendo usado para o engrandecimento pessoal de seus dirigentes, das associações filantrópicas que dominam, para a manipulação de votos, de recursos, dos processos decisórios e das relações com o Governo.

Tornou-se também, o Comitê, por vontade própria do governo federal, seu único interlocutor sobre esporte para pessoas portadoras de deficiência. A decisão do governo era fazer de seu presidente o “Nuzman dos deficientes”, mostrando bem o nível de cumplicidade a que chegaram. Acabava-se nesse momento com o nosso esporte de base.

Mas é preciso acreditar no país e isso implica em pedir providências, já agora em público, para uma mudança nesse quadro geral de descompromisso com o verdadeiro esporte, nesse contexto de omissões, desculpas burocráticas e falta de entendimento do que é democracia, participação e política social.

Não havendo recursos dos governos, o IBDD é um dos poucos clubes que consegue realizar trabalho sério com seus atletas. Estaremos presentes em Sidney com o judoca Tenório, que é também do Vasco, a Zezé e a Ádria, corredoras, todos deficientes visuais que trouxeram medalhas de Atlanta e treinaram nos últimos dois anos com técnico, bolsa e apoios diversos dados pelo Instituto. Incentivamos atletas novos através de bolsa e acompanhamento. Sei que somos uma exceção na seriedade com que fazemos a formação do atleta. Sabemos que é possível construir.

É também com essa experiência que denuncio a falta de uma política social de democratização do esporte para pessoas portadoras de deficiência. Um país como o nosso não pode investir só nas viagens e nos shows mal organizados do esporte de ponta. O esporte de alto rendimento tem sentido como resultado do investimento no esporte de base, é a difusão da prática desportiva que constrói cidadania, saúde, educação e integração social, esse é o sentido do investimento governamental no esporte. Um país com tantas restrições ao investimento na área social não há de convencer ninguém de que Sidney foi investimento social. Foi no mínimo desperdício de verba de patrocínio e publicidade.

No Brasil os clubes de esporte para pessoas portadoras de deficiência fecharam, os atletas de ponta pedem esmolas, os atletas novos não têm mais apoio, os professores de educação física não sabem como trabalhar. Não existem política nem atenção efetivas para as crianças e os adultos portadores de deficiência.

Sei que no papel vão encontrar uma série de razões e justificativas para explicar a obrigação específica dos órgãos responsáveis. Não me interessam. Nada constróem portarias, regulamentações, projetos feitos sob encomenda ou com conhecimento deturpado por vontades mais imperiosas.

O que me interessa é que a Miracema Ferraz está na esquina pedindo esmola e no passado trouxe recordes e medalhas de ouro do exterior. O que conta são as inúmeras Miracemas e as que voltarão de Sidney para as novas esquinas. O que me interessa é que o Caco não vai mais para Sidney.

O Governo Brasileiro deu quatro milhões de reais para o Comitê Paraolímpico Brasileiro fazer os Jogos Paradesportivos Brasileiros. Eles tiveram um show com direito a dupla caipira dia 30 de junho, as seletivas foram realizadas entre 1 e 9 de julho. As principais modalidades eram natação, atletismo, futebol de paralisados cerebrais, halterofilismo. As provas classificatórias de natação tinham prazo estabelecido nos regulamentos do Comitê Paraolímpico Internacional para se realizarem até 30 de junho. Tal fato foi reafirmado verbalmente no México, em 1999. Mas, pasmem, elas aconteceram a partir do dia 1o de julho. Que Jogos são esses? Que política é essa?

O Caco, nossa medalha de ouro em Atlanta, treina diariamente e pediu demissão de seu emprego para melhor se preparar para as Paraolimpíadas. Foi classificado pelos Jogos Paradesportivos, foi convocado e desconvocado para Sidney. Os índices dos Jogos Paradesportivos Brasileiros não tiveram validade para a classificação de nossos atletas de natação. O Comitê Paraolímpico Internacional não aceitou os resultados do Comitê Paraolímpico Brasileiro.

Que responsabilidade (?) disseminada de investimentos faz um disparate desses? Que apoio governamental responsável pode justificar tantos recursos para tão desorganizado desempenho, ainda mais na área de política social para pessoas portadoras de deficiência sempre com verbas enxugadas e planejamentos cortados?

O Caco não vai lutar por sua Medalha de Ouro, mas nós temos a obrigação, como seus admiradores, de lutar. Lutar por um Brasil mais democrático onde os homens sejam mais respeitados e o país mais justo. Em um país que vive futebol todas as horas do dia, o esporte está na alma do povo, a prática desportiva é resultado fácil.

Ficamos todos desapontados com os atletas olímpicos brasileiros em Sidney. Eu me revolto com a falta de uma política de desenvolvimento e democratização do esporte para pessoas portadoras de deficiência.

 
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