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Imagem representativa do item: Artigos Carta aberta ao ministro Pelé
Jornal: O Globo Rio, 1º de outubro de 1997

Teresa Costa d' Amaral

É claro que V. Excia. deve se preocupar com o esporte em geral em nosso país.

É claro que o futebol, a “alegria do povo”, precisa ser preservado com medidas de moralização, mas não entrarei na discussão sobre a crise de identidade do esporte nem do seu Projeto de Lei.

É claro, também que o esporte em nosso país pode ser mais do que a alegria do povo, e isso já é muito, pode ser também ferramenta de construção de cidadania. E que as milhares de crianças brasileiras podem com ele aprender essa construção e dela fazer parte.

Não entrarei nesses assuntos que são do meu interesse como cidadã mas não me dizem respeito diretamente como profissional.

Vou assim, Ministro, diretamente ao assunto: venho lhe falar do esporte para pessoas portadoras de deficiência.

Como é do seu conhecimento, esse trabalho tem dimensão social que abrange não somente a integração das pessoas portadoras de deficiência mas também um processo importante de conscientização da sociedade, e ambos devem ser desenvolvidos com perspectivas profundas de responsabilidade democrática, envolvendo necessariamente o Estado e setores da sociedade civil mobilizados para o problema.

A pessoa portadora de deficiência pode se beneficiar muito com diferentes atividades esportivas que introduzam as vantagens da prática do esporte no seu processo de integração, contribuindo para seu bem estar físico e psicológico, trabalhando sua auto-estima e sua inserção positiva na comunidade.

Através do esporte a sociedade pode ser mais facilmente conscientizada das potencialidades da pessoa portadora de deficiência, é emocionante ver um atleta portador de deficiência mostrando competência, eficiência, superação, alegria. Ele é um dos novos instrumentos com que podemos contar para lutar contra o preconceito e ir vencendo a discriminação que a população portadora de deficiência sofre, Ministro Pelé.

Mas sua prática é ainda incipiente em nosso país.

Ano passado seu apoio pessoal e institucional levou a delegação brasileira para Atlanta (e tive a honra de ser chefe dessa delegação) e trouxemos muitas medalhas, e representamos muito bem o Brasil.

E porque não dizer da beleza que V. Excia. viu em Atlanta. Daquele jogo de futebol em que V. Excia. deu o primeiro chute, dos nossos atletas nadando, correndo, lutando judô, participando, ganhando medalhas de ouro, prata e bronze.

Mas é preciso mais do que medalhas, ouso dizer a V. Excia..

É preciso desenvolver as bases do esporte para pessoas portadoras de deficiência no Brasil.

Temos sim uma história construída da ousadia de líderes na área de esporte para portadores de deficiência. Temos associações e clubes que vêm se organizando, treinando, viajando. Insistindo em construir esse esporte em nosso país. Vieram fazendo sua parte nessa construção e tiveram apoios de órgãos públicos. Tiveram apoio do Zico e do Bernard, quando eles dirigiram a área de Esporte, tiveram mesmo o meu apoio quando dirigi a CORDE (coordenadoria exemplarmente construída no governo Sarney e que colocava o Brasil no primeiro mundo em termos de politica para portadores de deficiência, nos moldes que a ONU preconiza, mas que hoje está totalmente desvirtuada de suas funções).

É preciso mais do que participar precariamente, embora com todo esforço, de competições no exterior, mais do que realizar precários jogos regionais com o seu apoio, Ministro. Seu apoio vale e pode muito mais.

V. Excia., que um dia dedicou seu milésimo gol às crianças brasileiras, pode deixar uma marca definitiva na construção da cidadania da pessoa portadora de deficiência.

Seu apoio pode desenvolver um trabalho definitivo para o nosso esporte. Dele pode depender sua qualidade. Pode depender também seu desenvolvimento e expansão. Dele certamente pode resultar a existência de sua base, mas uma base que seja duradoura e abrangente, de um esporte que trabalhe para todos. Que alcance as diferentes modalidades, as diferentes deficiências e as diferentes classes sociais.

É preciso, Senhor Ministro, que haja o debate e a definição de uma política nacional para esse setor.

E depois será necessário ir construindo (e as associações e os clubes de pessoas portadoras de deficiência participarão dessa construção), ir construindo o nosso esporte em cada cidade, ir desenvolvendo atividades em praças, escolas, universidades e clubes. Mas isso só poderá ser feito com seu apoio, com recursos financeiros e apoio político que permitam desenvolver suas vertentes de integração, competição e técnica que deverão estar sempre muito bem entrelaçadas.

Algumas lideranças nacionais do movimento de pessoas portadoras de deficiência, em particular no que se refere ao esporte, estão preocupadas com seu desenvolvimento.

Inexiste um movimento consistente do governo federal em relação a uma política social para integração da pessoa portadora de deficiência, tanto a coordenação interministerial quanto a maioria das políticas setoriais estão abandonadas. Quem sabe o senhor, Ministro, pode resgatar um pedaço dessa omissão.

E a sua participação, através de uma política consistente, pode fazer a diferença.

Era isso que tinha a pedir, Senhor Ministro. Faça essa diferença. Esse é o sentido de minha carta aberta. Um apelo para que pense nesses argumentos e construa além do que já construiu.

Dedique seu gol a 15 milhões de brasileiros.

 
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