Compreender a deficiência no espaço da democracia significa procurar construir para o deficiente o direito à igualdade. Diferença é o que marca hoje o deficiente, e essa diferença é abrangente, vai desde a definição pela falta até a rejeição pelo medo. Porque nossa civilização, enquanto construiu para o homem os ideais de igualdade, enveredou também pelo caminho da eficiência, da perfeição e da superioridade, e nessa busca não houve espaço para a diferença, os menos perfeitos ou menos superiores ou menos eficientes foram segregados porque ameaçavam. O que interessou ao mundo e talvez ainda interesse é a medida da competência e não o conteúdo da igualdade. Olhar o homem em sua totalidade permitirá pensar suas infinitas possibilidades de ser igual mas, fundamentalmente, lhe dará a oportunidade de ser diferente. E aqui não podemos nos restringir à deficiência, abramos os olhos para outros estigmatizados da nossa democracia.
Pensar a deficiência como uma questão de cidadania significa propor uma abordagem nova que utilize o enfoque da política social para procurar, e encontrar, consistentes saídas para o problema. Direitos básicos da cidadania, tornados dogma e reivindicados diariamente - pela sociedade e pelo governo - para todo cidadão, são ainda inalcançáveis para a grande maioria dos deficientes brasileiros. Direitos civis fundamentais, como o de ir e vir, não existem para a realidade dos deficientes físicos. E que dizer do acesso à justiça, tão necessário, se pensarmos que até hoje ela nem olhou para a questão. E os direitos políticos? Que mínima percentagem de deficientes votará, discriminados pelo preconceito da incapacidade de escolher? Continuemos a enumeração pelos direitos sociais, ainda sendo construídos em nosso país, por certo, mas totalmente inexistentes para o deficiente: acesso à saúde, educação, acesso ao trabalho e ao lazer, aspirações legítimas para todo brasileiro mas da dimensão do sonho para o deficiente, só uma minoria os conquista, porque as necessidades do deficiente, todas, e não somente as específicas, não foram ainda incorporadas aos direitos de cidadania em nosso país.
A cidadania do deficiente é duplamente usurpada. Em um momento é negada nas conquistas comuns a qualquer cidadão, e em outro momento é afastada porque o direito à igualdade implica também no respeito à diferença, o que para o deficiente significa o direito de não estar em desvantagem, o direito às compensações. Esse direito compensatório, discutido em outros países, para nós ainda não existe, mas é o que legitima definitivamente o acesso do deficiente à igualdade. A conquista do direito a compensações, individuais ou coletivas, permitirá alcançar a educação especial, a reabilitação, a saúde, os meios de transporte e de comunicação, o trabalho, o lazer.
A marginalidade de tal modo atingiu o deficiente que estamos vendo hoje a estranha posição de algumas correntes no sentido de conquistar o «direto à diferença». Como se pudesse haver a vontade de permanecer de fora da festa da democracia, como se aceitar o deficiente fosse mantê-lo no gueto da diferença. Já ouvimos isso diversas vezes na história do mundo, será que o estigma é de tal forma intransponível que o melhor é incorporá-lo como diferença insuperável? Não foi assim que aprendemos; ao contrário, o direito à igualdade é nosso aliado, e ao lado dele construímos os direitos de cidadania, resultando ambos no direito de não estar em desvantagem e no respeito à diferença.
E se nos disserem que sim, que a sociedade nada tem contra esses argumentos, por onde levaremos nossas reivindicações de mudanças? Podemos admitir que existe uma combinação tácita entre governo, sociedade e instituições para a manutenção da atual situação: sim, os direitos são iguais, mas os deficientes são diferentes. A manutenção da diferença interessa aos que podem fechar os olhos para o outro, para o diferente, para o deficiente, para o negro, para o pobre, para o louco, para a criança abandonada. Paternalismo, assistencialismo, segregacionismo têm a mesma vertente de deixar a diferença longe, como diferença. Sem ameaças à homogeneidade da identidade, mantém-se hoje no Brasil a igualdade social do respeito à desigualdade.
Em sua constante luta por sobrevivência o deficiente ainda espera poder entrar na fila do INSS, andar em ônibus lotado, ser atendido em hospital público. Ele procura por todos os meios ter acesso à escola, ao médico, ao emprego. Ainda nem pensa em querer ser feliz. Para o deficiente os direitos de cidadania vão incluir ainda uma reivindicação: o absurdo direito de ser feliz.