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O Globo, Opinião, 21/09/2006:

Um só dia de luta?

TERESA COSTA D'AMARAL

21 de setembro, Dia Nacional de Luta das Pessoas com Deficiência. Mas um dia só?

Trabalho todo dia, cada dia, há muitos anos para fazer diferença nessa luta.

Para colocar em ação a idéia da ONU de que os países devem ter um órgão perto do centro do poder executivo, trabalhei diuturnamente junto ao então Presidente Sarney para construirmos a idéia, os apoios e a criação da CORDE, na Presidência da Republica. Fazendo seu caminho chutei pedras, empurrei portas, desafiei vontades do poder.

Para colocar em discussão a idéia de uma legislação que regulamentasse a constituição na nossa área, foram meses, anos de trabalho. A Lei 7853 foi baseada no trabalho de um Comitê de associações de deficientes, de representantes do governo e da sociedade e de pessoas com deficiência. Foi resultado da minha luta. Hoje a Lei 7853 é reconhecida como uma das melhores legislações das Américas, por dois dos mais respeitados organismos internacionais segundo a BBC.

Depois, com o desencanto de trabalhar para o governo, vendo que o que a gente faz em 4 anos vem o administrador seguinte e desfaz em um só dia, resolvi trabalhar do outro lado.

Cismei de fazer uma fábrica de cadeira de rodas para deficientes em uma organização da sociedade civil. Pesquisa de financiadores - na época, na área de fundações privadas, praticamente só a Fundação Vitae financiava projetos com deficientes. Apalavrados recursos e etapas, começamos o desafio. Precisávamos de voluntário para planejar as áreas de engenharia e de finanças, alguém que tocasse o trabalho no chão da fábrica, e ainda a comercialização. A idéia era ter uma cadeira brasileira de baixo custo e boa qualidade, feita por operários portadores de deficiência e ainda realizar cursos na área de operações da fábrica.

O sonho foi realizado, as cadeiras foram produzidas e vendidas, pessoas com deficiência foram empregadas. Veio o vento e soprou contra. A fábrica virou sucata, o investimento foi jogado fora.

Identifico nessa incapacidade brasileira de dar continuidade a bons trabalhos, estar sempre querendo ou reinventar a roda ou ser dono de projetos antigos com nomes novos, um dos nossos grandes problemas na área social.

Nesses dias de campanha, me espanta a convicção de cada candidato de que vai fazer tudo, de que sabe fazer tudo, de que pode fazer tudo, e de preferência tudo de novo e tudo sozinho.

Não desisti de acreditar no Brasil. Mas até hoje ainda não decidi meu voto.

Continuo fazendo de cada dia um dia de luta. Criei o IBDD.

Ele nasceu da convicção de que era possível ter a ousadia de fazer uma ong totalmente diferente, de que era possível ser solidário e reconhecer as incontáveis possibilidades de exercitar a igualdade.

No IBDD ninguém espera para ser atendido e cada deficiente que nos procura faz parte da nossa luta. Cada um dos 20.361 atendidos nos nossos 8 anos de existência fez parte dos nossos desafios, derrotas e vitórias. Lutamos com eles e vencemos com eles. Esse compromisso pessoal nosso com cada um deles é que faz a diferença.

E ainda mais, somos sustentados pelo resultado do nosso trabalho. Provamos que é possível construir também essa diferença.

Sei que para as pessoas com deficiência é um desafio diário exercer o simples direito de ir e vir, poder freqüentar a escola escolhida, ter uma prótese adequada. Seguir sua vocação, ter um emprego, sei que tudo, tudo, exige um esforço avassalador.

Mas sei também que as dificuldades que as marcam são infinitamente suavizadas quando a mão da fraternidade, a sabedoria do conhecimento e a força da coragem passam por suas vidas.

Essa é a luta de cada dia que celebramos no nosso dia de luta.

Podemos mostrar a cada eleitor e a cada candidato que a luta é uma obrigação diária que só tem sentido com compromisso e que só assim constrói mudança.

Como o compromisso do IBDD, de procurar interferir no destino, construir cidadania, lutar pelo fim da exclusão e celebrar o sonho de justiça social.

TERESA COSTA D'AMARAL é superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD).

 
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