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Item: IBDD - Notícias

 

 

Debate sobre deficiência

Programa da RioTV Câmara

(Clique aqui e veja o debate)

Transcrição:

 

Júlio Rebouças – Está no ar o RioTV Debate. Discutimos aqui temas do interesse da coletividade. Fatos que interferem diretamente na vida da população do Rio de Janeiro e de todo o país. O nosso debate de agora trata dos portadores de necessidades especiais. Vamos falar da acessibilidade, que é a garantia do direito constitucional de ir e vir

Júlio – Para este debate sobre a realidade dos portadores de necessidades especiais, convidamos o arquiteto e urbanista Itamar Kalil, do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura. Recebemos também o jornalista e assessor da superintendência do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Andrei Bastos. E o recordista mundial de lançamento de discos, o atleta paraolímpico e coordenador da Andef, que é a Associação Nacional dos Deficientes Físicos, Anderson Lopes. Senhores, obrigado pela presença e, antes de iniciar esse debate, eu gostaria, e o público também com certeza, de saber se esse termo “portadores de necessidades especiais” é um termo politicamente correto, parece que não, né?

Anderson Lopes – É, hoje a gente avançou bastante. A nossa legislação ainda fala de “pessoas portadoras de deficiência”. Na área de educação se fala ainda “pessoas com necessidades especiais educacionais”, mas o grande termo hoje, usado inclusive no nosso decreto 5296, uma lei bastante abrangente de acessibilidade no país, fala sobre “pessoas com deficiência”, né? Porque o termo “pessoas com necessidades especiais”, todas as pessoas têm uma necessidade especial, falta de afeto, falta carinho, falta dinheiro para muita gente. Então o termo corretamente usado hoje é “pessoas com deficiência”.

Júlio – É o nome da sua associação, né?

Anderson – Pois é, Associação Niteroiense das Pessoas com Deficiência.

Júlio – Você concorda com esse ponto de vista?

Itamar Kalil – Plenamente. Inclusive acho que mais importante até do que o termo é que a sociedade esteja discutindo esse tema. Esse programa, por exemplo, ele tem esse objetivo e mais do que qualquer termo é o tema que é importante.

Júlio – E você Andrei, o que é que pensa a respeito disso?

Andrei Bastos – Júlio, eu concordo com o nosso companheiro Itamar de que mais importante é discutir a acessibilidade em si mesma. Mas os conceitos, a nomenclatura, também têm uma importância muito grande no sentido de conscientizar a sociedade da real condição da pessoa com deficiência. E por isso mesmo é que essa expressão “portadores de necessidades especiais” é duplamente errada, politicamente falando. Por quê? Porque portadores? Nós não portamos nada, nós temos uma deficiência, é uma condição nossa, é um atributo nosso como é um atributo uma pessoa ser alta, magra, gorda, enfim, por aí vai. E depois, necessidades especiais, como o Anderson bem diz, quer dizer, todo mundo tem uma necessidade especial. Eu tenho necessidade de ir todo ano para Paris como você deve ter de ir para Londres, com essa sua pinta de lorde.

Júlio – Nem, tanto, nem tanto...

Andrei – Então essa expressão é duplamente errada politicamente falando. O correto é pessoa com deficiência.

Júlio – Bom, e a gente vai discutir aqui exatamente a acessibilidade das pessoas com deficiência. Vamos assistir então, agora, a um filme que trata desse assunto. Vamos ver.

Júlio – Bom, vocês viram aí, esse é um filme muito sensível, que chega até a emocionar a gente, mas a lei em questão é na verdade a de número 1.058. Andrei, se a lei existe, porque que ela não é cumprida?

Andrei – O grande problema do Brasil, não é só do município do Rio de Janeiro, é o desrespeito às leis que já existem. O Brasil tem uma legislação que contempla a pessoa com deficiência que é considerada por institutos internacionais como a melhor das Américas. Nós não precisamos de nenhuma lei nova, de nada. O que nós precisamos é que a lei seja cumprida. E ela precisa começar a ser cumprida pelo próprio poder público, pelo poder executivo, que não tem políticas públicas adequadas, a começar por essa questão que é fundamental porque ela mexe com o direito que não é só constitucional, é um direito humano, que é o direito de ir e vir. E é justamente o segmento das pessoas com deficiência menos favorecidas, que precisam do transporte coletivo, que vêem desrespeitado esse seu direito. Então, no Rio de Janeiro nós temos uma situação absurda de uma frota de aproximadamente 10 mil ônibus e apenas 48 adaptados. Isso é uma piada de mau gosto.

Júlio – Quer dizer, os ônibus têm que se adaptar, as empresas têm que fazer alguma coisa, existe um prazo até 2014 de acordo com a lei federal de que toda a frota seria adaptada para os deficientes, mas quem que fiscaliza? O CREA fiscaliza isso?

Itamar – Veja só, o CREA tem um papel bastante claro no decreto presidencial que seria de fiscalização do exercício profissional. Porque, na verdade, as cidades, as edificações, passam exatamente pelas mãos do arquiteto, do engenheiro. E ao CREA cabe fiscalizar esse exercício profissional. Mas, ao mesmo tempo, o CREA Rio de Janeiro tem entendido seu papel social bem além dessa tarefa, que lhe é particular no sentido da fiscalização desse exercício profissional, que é de procurar fazer com que essas leis sejam cumpridas. Então, o CREA tem desenvolvido um trabalho bastante amplo junto com o Ministério Público, junto com o IBDD, temos sido parceiros bastante ativos nessa ação que seria tentar buscar meios e articulações para que essa lei realmente se verifique na prática.

Júlio – Em todo o Estado do Rio, quantos são os fiscais do CREA?

Itamar – Hoje atualmente o CREA tem 70 fiscais.

Júlio – É um numero satisfatório?

Itamar – Não, eu diria que não diante desse universo que nós temos das construções. E particularmente com a questão da acessibilidade. Se nós entendermos que as nossas cidades têm aí um passivo do ponto de vista dessas condições enorme. Nós temos as cidades que não têm condições de acessibilidade, então nós teríamos um esforço tremendo de fiscalizar tudo isso. Mas eu acho que a questão não está em fiscalizar cada edificação. É de buscar articulações e compromissos do poder executivo, no caso as prefeituras têm um papel fundamental porque cabe a elas a fiscalização cotidiana das edificações na aprovação, licenciamento dos projetos, nós sempre entendemos o seguinte: se as prefeituras cumprirem o que determina o decreto na análise e no licenciamento do projeto. Garantir as condições de acessibilidade, eu diria que daqui para frente nós não vamos nos preocupar mais. Então, nós iríamos nos preocupar sim com o passivo que é enorme já, do que as cidades hoje estão colocadas. Não é o que se vê necessariamente, por exemplo, agora mesmo aqui na cidade do Rio de Janeiro, no centro da cidade se termina uma obra enorme viária, na Presidente Antônio Carlos, onde você percebe que as condições de acessibilidade não estão atendidas em sua totalidade, e é uma obra nova. Nós temos um centro de convenções recentemente inaugurado, que se diz que é para se resolver os problemas de espaços para convenções no Rio de Janeiro. Se você for verificar, não estão atendendo as mínimas normas de acessibilidade.

Júlio – Agora eu gostaria de saber de você, Anderson, se existem muitos processos na justiça reclamando os direitos das pessoas com deficiência?

Anderson – Na verdade, a partir de 1981, que foi o ano internacional das pessoas com deficiência, e a partir de 1988, que foi o ano da mudança da nova Constituição, teve-se muito avanço com as pessoas com deficiência. Se a gente pensar bem, que o direito de ir e vir que você, Júlio, abriu ali o programa, o direito de ir e vir é um direito constitucional. Eu acho que o poder público, quando assume lá a Prefeitura, a Câmara de Vereadores, com os seus vereadores, teriam que ter essa bandeira em punho porque não é só a pessoa com deficiência. Hoje a gente tem problema de locomoção na cidade com idoso, o obeso, o deficiente temporário.

Júlio – Só te interrompendo um pouquinho, todos nós um dia, não só os deficientes, vamos envelhecer, vamos ficar...

Anderson – Pois é, e a nossa população idosa está aumentando cada vez mais. A nossa cidade é uma cidade turística, recebe milhares, milhões de portadores de deficiência, de idosos, né? A gente vê ali no cais do porto do Rio de Janeiro aqueles transatlânticos enormes com uma população idosa muito grande.

Júlio – Você acha que a Câmara Municipal do Rio de Janeiro tem sido uma boa parceira das entidades, das associações, para fiscalizar o trabalho da Prefeitura?

Anderson – Pois é, eu acho que aí que está a questão, nós temos um grupo de vereadores que lutam para que as pessoas com deficiência, já foi um grande avanço a Câmara Municipal ter uma comissão da pessoa com deficiência permanente, para quê? Para que essas pessoas, né? Nós que portamos algum tipo de deficiência pudéssemos lutar e ter ali um referencial. Hoje o Rio de Janeiro é um espelho para várias Câmaras de Vereadores no Rio de Janeiro, mas eu acho que falta essa consciência política, principalmente do poder executivo, de que o direito de ir e vir é um direito constitucional para todos, não dá mais para tampar o sol com a peneira. E com relação às ações existem milhares, mas agora, a partir de 2004 para cá, nós temos a nossa legislação federal regulamentada no decreto 5296, que é a maior legislação de acessibilidade do país, não tem mais como falar que não dá para cumprir, os prazos já estão estabelecidos e o transporte público, como foi o caso das edificações, que se findou os prazos, o transporte coletivo da cidade, os empresários de ônibus não têm mais para onde recorrer, eles vão ter que adaptar ou criar o transporte inclusivo que respeite o direito de ir e vir de todo o cidadão, não só das pessoas com deficiência. Aquele que tem dificuldade de locomoção, então eu sempre brigo muito com a Rio Ônibus, com a Fetranspor, eu acho que agora essa briga de Golias e de Sansão a gente vai vencer porque as pessoas portadoras de deficiência estão mostrando que queremos viver, queremos produzir para a cidade do Rio de Janeiro ser uma cidade forte. A gente não quer ficar dentro de casa dependendo de políticas públicas assistencialistas. A gente quer contribuir para o crescimento do Rio de Janeiro, a gente quer contribuir para o crescimento do nosso Estado e para isso a gente tem que ter o direito de ir e vir garantido, a acessibilidade nos prédios públicos e no transporte também.

Júlio – Agora a gente viu aí nesse filme, que nós exibimos ainda há pouco, que o motorista de ônibus, lá em determinado momento, eles passam, o cadeirante está lá fazendo sinal para ele parar e eles passam, não param também para pessoas idosas, né? O fato das associações entrarem na justiça, movimentarem, exigirem, lutarem por seus direito, como o senhor avalia isso, Andrei?

Andrei – Júlio, até acrescentando um pouco à fala do Anderson, quer dizer, o IBDD entrou com uma ação, uma única ação contra todas as empresas concessionárias de transporte coletivo do Rio de Janeiro há alguns anos. E o juiz despachou dizendo que seria preciso fazer uma ação contra cada empresa. Hoje nós temos aí, portanto, 47 ou 48, agora eu não tenho bem certo o número de ações. Uma ação para cada empresa para que seja atendida essa necessidade de transporte adaptado.

Júlio – Esse é o único caminho que resta?

Andrei – Na verdade, nós concluímos que não devemos cobrar apenas das concessionárias porque quem é o primeiro responsável por essa situação? É o poder concedente, que é o poder executivo, sabe? Então nós temos que cobrar do poder executivo, que é o poder que concede aos empresários de ônibus, que a gente chama muitas vezes de máfia do transporte coletivo, né? Que eles vão deixar de ser máfia no momento em que o poder executivo no momento da concessão colocar uma condição, uma cláusula exigindo que um determinado percentual dos seus veículos sejam acessíveis, então não existe problema aí. Essas ações nós estamos ganhando mas, enfim, elas não garantirão a solução se o poder público, se o poder executivo também não entrar de sola no seu papel de fiscalizador. A Câmara dos Vereadores vem desenvolvendo um papel bastante significativo com a sua Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência, que é a nossa parceira, parceira do IBDD, do CREA, de todos nós. Mas ela, na verdade, criou um grande imbroglio na legislação municipal porque nós estamos meio sem lei a partir de uma lei que há alguns anos surgiu aí.

Júlio – Mas isso não seria uma responsabilidade também da Prefeitura que não faz cumprir ou que não executa?

Andrei – Sim, a Prefeitura poderia até mandar um projeto de lei, sei lá o quê, tomar essa iniciativa. Mas o Rio de Janeiro ficou uma terra sem lei nessa área do direito de ir e vir porque existia uma lei anterior. O Pitanga, quando era vereador, criou uma lei relativa à questão das vans, que era um transporte especial, e aí a confusão surgiu porque interpretaram como se essa lei revogasse a anterior, que tratava do sistema como um todo. Então, por isso, essa coisa de a gente ter 48 ônibus adaptados, apenas um por cada empresa, resultou não de uma lei, mas de um acordo entre as empresas concessionárias e a Prefeitura. Então você vê, se a Prefeitura prefere fazer um acordo com as empresas concessionárias do que tomar a iniciativa de apresentar um projeto de lei ou coisa semelhante na Câmara, a gente tem que cobrar dela esse rigor maior do seu papel não só de fiscalizador, mas de promotor do bem estar da comunidade, e nós somos parte dessa comunidade.

Júlio – E por falar em comunidade, o RioTV Debate também tem a participação das pessoas das ruas. Nós ouvimos algumas pessoas que têm perguntas para fazer para os senhores. Vamos ver a primeira pergunta.

Francisco de Assis – Meu nome é Francisco de Assis. Fala-se muito de inclusão social. Não se faz nada por quê?

Júlio – Bom, você responde essa Itamar?

Itamar – É, veja só. Eu acho que pouco se faz sim, até porque a inclusão ela é um conjunto de ações, fatores que geram a inclusão. Nós estávamos aqui discutindo assim, por exemplo, as edificações. Elas têm que estar acessíveis. Vem o IBDD apropriadamente com uma ação cobrando do executivo, tanto o federal como o estadual e municipal, o cumprimento. Mas, ao mesmo tempo, se você não tem um sistema de transporte acessível as pessoas não vão conseguir chegar até aqueles prédios acessíveis. Se você não tem uma condição de acesso dessas pessoas à escola, aos hospitais, à diversão, à cultura, ao lazer, então você, eu diria que essa inclusão não se dá na sua plenitude porque quando se fala em inclusão conceito, é em todo o seu aspecto, é a possibilidade desse indivíduo ser igual a todos na possibilidade de ir e vir, de ter acesso àqueles bens, da educação, da saúde, do lazer, até dos direitos e obrigações para que possa ir a um prédio público pagar os seus tributos muitas vezes, né? Então, me parece que ainda eu concordo com o telespectador na medida em que diz que essa inclusão ainda não se dá na sua plenitude.

Júlio – Pois é, há autores que dizem que a cidade é na verdade uma espécie de campo de concentração para as pessoas com deficiência. Você concorda com isso? Um campo de concentração sem cercas, né?

Anderson – Pois é, eu acho que as pessoas com deficiência, já diz a história, o Brasil tem isso. Eu já estive em 22 países representando o meu Brasil como atleta paraolímpico. Fui medalhista em 2 Paraolimpíadas, consegui o ápice que um atleta, um brasileiro, né? Bati o recorde mundial no lançamento de disco e ganhei muito tapinha nas costas. Inclusive de prefeitos, de governadores e de presidentes e eu soube usar a minha medalha como uma ferramenta dessa cobrança da inclusão social, como é que eu posso ganhar uma medalha e lembrar que 14,5% da população, dado do IBGE do senso 2000, estão dentro de casa sem ter o seu direito de inclusão, o seu direito de ir e vir. Então eu seria uma pessoa muito ruim como cidadã se eu não soubesse usar o poder dessa medalha paraolímpica para reivindicar. E hoje a gente avançou bastante, antigamente as pessoas com deficiência eram usadas assim, eu te dou uma cadeira de rodas e tá tudo feito. O que adianta você dar uma cadeira de rodas para uma pessoa que mora numa favela e não tem como descer, se você não dá urbanização. Como é que você faz a inclusão para essas pessoas saírem da própria casa, quando você quer comprar um material de construção e vai lá, até os próprios arquitetos quando desenham os seus prédios, portas de banheiro, te vendem porta de 60 e você sabe que em 60 não passa cadeira de roda. Então, eu acho que a responsabilidade do poder público de conceder os habite-se, hoje você roda aí esses grandes centros imobiliários, esses prédios na Barra da Tijuca, tudo com porta de 60 sem acessibilidade. Será que as pessoas não pensam que idosos e pessoas com deficiência vão usar esses prédios públicos? Eu acho que esse grande campo de concentração, né? Concentração no sentido de deixar isso concentrado dentro de casa, porque a força da pessoa com deficiência hoje, do debate dessa abertura, por exemplo, do teu primeiro programa estar podendo falar aqui dos nossos objetivos, da nossa força de trabalho, do nosso potencial que é um potencial que existe, um potencial verdadeiro. Eu acho que o poder público, a Prefeitura do Rio de Janeiro, a Câmara de Vereadores poderia ter um pouco mais de responsabilidade com essa força de trabalho, com esses atletas, com esses guerreiros que estão aí querendo que o seu dia a dia seja mais inclusivo.

Júlio – Isso está em curso na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, uma análise toda, uma CPI a respeito do Jogos Pan-Americanos e, conseqüentemente, do Parapan, né?

Anderson – Pois é.

 

Júlio – E como é que você analisa isso ou deixaria para o nosso amigo Andrei aqui iniciar o comentário?

Andrei – É, eu faço muita questão de comentar esse episódio do Parapan. Mas antes queria falar rapidamente pegando um gancho no toque do internacional que o Anderson deu. Eu acho que a questão da inclusão social tem dois aspectos: um mais suave, que é o da invisibilidade da deficiência e da pessoa com deficiência. As pessoas, de um modo geral, elas não vêem, não conseguem enxergar a deficiência porque não se imaginam com deficiência (“Isso nunca vai acontecer comigo”). Só quando acontece é que a ficha cai, né? Essa questão da invisibilidade é resolvida com esclarecimento, com informação, com conscientização. Existe um lado mais grave, que é do campo de concentração, literalmente falando. Do condomínio de Nova Sepetiba, por exemplo. Quando ele foi construído ele tinha uma estrada. De um lado, que dava para a praia, as casas eram bonitinhas e as ruas asfaltadas. Do outro, as ruas eram de terra, de barro, né? E ali foi criado um gueto para as pessoas com deficiência. Se chovia as pessoas não conseguiam sair, chegar na esquina. Mas se conseguissem chegar na estrada, não iam ter ônibus para chegar a lugar nenhum.

Júlio – Quer dizer, se correr o bicho pega, se pegar o bicho come.

Andrei – Então, esse é o lado da discriminação, vamos dizer assim, em que as pessoas são realmente colocadas em guetos. Até mesmo por muitas das famílias que têm pessoas com deficiência, que colocam o seu deficientezinho no quarto dos fundos. Isso vem sendo superado até por conta do esforço das próprias pessoas com deficiência. Que vêm lutando e se afirmando e superando a si mesmas e às dificuldades da vida. Um desses melhores exemplos de superação se dá mesmo nos esportes, né?

Júlio – Mas então, falando em esportes, eu vou agora pedir para fazer um pequeno intervalo, até para dar tempo de respirar também, né? Tomar uma água e a gente volta com o RioTV Debate falando do Parapan.

Júlio – Estamos de volta com o RioTV Debate, hoje focando a realidade das pessoas com deficiência. E antes de iniciar aqui a conversação sobre os Jogos Parapan-Americanos, vamos ouvir uma pergunta de uma cadeirante feita nas ruas.

Graziela Corsioni – Meu nome é Graziela Corsioni, sou advogada, e eu gostaria de saber qual foi o ganho que a cidade teve com o Parapan, efetivo? Porque houve o Parapan aqui, a coisa teve uma dimensão grande, mas para quem ficou, teve algum ganho efetivo?

Júlio – Bom, e aí, o que os senhores me dizem? Vamos ver o Andrei. Os Jogos Parapan-Americanos deixaram algum legado para a cidade?

Andrei – Deixaram um legado de vergonha. Porque o que nós assistimos foi à explicitação de uma discriminação sem tamanho, com uma diferença de tratamento entre os Jogos Pan-Americanos e os Jogos Parapan-Americanos, entre os Jogos dos atletas sem deficiência e os Jogos dos atletas com deficiência. Essa discriminação, ela se explicitou desde as construções que foram feitas de maneira irregular, incompleta, imperfeita, né?, até o que culminou com a morte do atleta argentino Carlos Maslup, porque a diferença do atendimento médico foi gritante e evidente e criminosa. Enquanto os jogos Pan-Americanos receberam assistência médica privada da Golden Cross, os Jogos Parapan-Americanos não contaram com isso e só tiveram os hospitais públicos. Não que os hospitais públicos, que os nossos médicos sejam incompetentes, não se trata disso. Aliás, se você sofrer um acidente e sofrer uma fratura, corra para o Miguel Couto, que lá tem a melhor ortopedia. Se você tiver um problema cardíaco, corra para o Salgado Filho, ou neurológico, corra para o Salgado Filho, que lá tem a melhor equipe. Mas o simples fato de haver uma diferença entre uma coisa e outra já caracteriza discriminação. Agora, o que aconteceu? Enquanto os atletas dos jogos Pan-Americanos eram atendidos em poucos minutos num hospital que ficava ao lado dos jogos, que era o Barra D’Or, que era o hospital referência por determinação do CO-Rio, assim foi dito pelo comandante do corpo de bombeiros, que era a equipe responsável para transportar. E ocorreram acidentes com atletas pan-americanos. Teve um esgrimista que teve o pulmão perfurado e foi atendido no Barra D’Or. O lutador Flávio Canto também teve uma fratura no cotovelo e também foi atendido prontamente, em questão de minutos, no Barra D´Or. O atleta argentino sofreu um AVC as 4 horas da manhã, ainda na Vila Pan-Americana. Às 8h30min ele foi transportado, e então aí vão 4h30min, para o Miguel Couto, que não é o hospital referência para esse tipo de problema médico, mas era o hospital referência no caso dos jogos Parapan-Americanos, também por determinação do CO-Rio. Então aí está explicitada a discriminação. O CO-Rio determinou que para o Pan-Americano o hospital referência era o Barra D’Or e determinou que para o Parapan-Americano o hospital referência era o Miguel Couto. E os pobres dos bombeiros nem sabiam que o Miguel Couto não era referência para o acidente cárdio vascular.

Júlio – Quer dizer, faltou tudo, até comunicação, né?

Andrei – Faltou tudo, comando, coordenação, ou seja, ficaram no Miguel Couto aguardando atendimento, não tinha vaga no CTI, ele só foi internado no Salgado Filho, no Méier, no outro lado da cidade, às 15h da tarde, se não me falha a memória. Quer dizer, todo mundo sabe, não vamos discutir aí a competência de ninguém, mas todo mundo sabe que num problema médico dessa natureza, um AVC, o tempo no atendimento é um fator de extrema importância até para diminuir as seqüelas. Ninguém pode afirmar, só Deus, ninguém é Deus, de que não faria diferença o atendimento àquele atleta, que o caso dele era muito grave, ninguém pode afirmar isso.

Júlio – Você, que foi um atleta parapan-americano, como você analisa isso?

Anderson – Eu participei antes desse Parapan no Rio porque foi a primeira vez, eu acho que é um grande ganho no segmento da pessoa com deficiência. Foi a primeira vez que aconteceu na história dos jogos Pan-Americanos, na versão, logo após igual aos moldes das Paraolimpíadas, aconteceu o Pan-Americano e logo em seguida foi o Parapan-Americano. Esse foi o grande ganho, o grande avanço no contexto do esporte para pessoa com deficiência no nosso país e na América e no mundo. Aconteceu o Pan e logo em seguida o Parapan, porque nas outras versões foram em cidades diferentes. Esse foi o grande ganho para o segmento paraolímpico do Brasil.

Júlio – Mais nenhum ganho além desse?

Anderson – Outra questão importante que a gente não pode deixar de salientar é a visibilidade através da mídia que não foi tão grande como nos jogos Pan-Americanos, mas a gente já teve a SporTV transmitindo ao vivo algumas modalidades. Faltaram algumas qualidades técnicas de atletas que não são conhecidos, mas eu acho que aos poucos isso pode ser consertado, esse foi um grande ganho também dos atletas poderem expor as suas medalhas porque isso antigamente não existia. Concordo em número, gênero e grau com o Andrei no sentido de que a gente, o poder público, né?, o país explorou muito a força dos jogos Parapan-Americanos. A gente sabe que tem muitas pessoas que se espelham nesses atletas para falarem assim: “Caramba, no final desse túnel tem luz, eu quero ser igual ao Anderson, eu quero ser igual ao Clodoaldo, eu quero ser igual ao Daniel, eu quero ser igual ao Tenório, quero ganhar medalha pro meu país, mas como é que isso acontece?” Pra você ter uma idéia, o transporte adaptado que foi trazido para a cidade do Rio de Janeiro, foi trazido de outras cidades. A gente perdeu uma grande oportunidade no setor de transporte para adaptar o transporte público. A gente perdeu uma grande oportunidade do setor hoteleiro adaptasse realmente os seus hotéis para receber, enfim, os jogos Parapan-Americanos deixaram para trás uma grande importância para o Brasil, mas infelizmente o legado da consciência  de que as pessoas portadoras de deficiência estão aí para vencer o seu dia-a-dia, esse legado não ficou. Até mesmo porque o Brasil foi campeão em número de medalhas, foi campeão no Parapan. Mas não foi campeão nessa questão do legado, da organização e se fechou com chave de lata essa questão da morte do argentino mesa-tenista.

Júlio – Eu gostaria de ouvir o Itamar do CREA a respeito. O Andrei citou aqui a construção dos estádios e tal. Isso não foi fiscalizado, não foi aventada essa possibilidade de fazer uma fiscalização rigorosa já que os jogos Parapan-Americanos viriam em seqüência aos jogos Pan-Americanos?

É, Júlio, veja só. Acho que o legado desses jogos, aí eu estaria ampliando essa questão não só do Parapan, não é? Os jogos Pan-Americanos mesmo. A exemplo de outras cidades, que aproveitam esse evento, esse grande evento onde se tem um investimento maciço na cidade, para que ela deixe um legado pra cidade. E o que nós observamos é que já não se fala mais, não tem mais resquícios dos jogos Pan-Americanos aqui no Rio de Janeiro. Óbvio, sem dúvida você tem a construção de um estádio como o Engenhão, você teve a construção da Arena Multiuso etc. Mas em termos de transporte não ficou, em termos de outros equipamentos para a cidade, hoje em dia nós não temos mais essa lembrança porque ela não deixa caracterizado essa intervenção na cidade.

Júlio – Por motivos como esse que a Câmara Municipal instaurou a CPI, né?

Itamar – Sem dúvida, porque se gastou um dinheiro enorme. Mas eu diria a fiscalização. Na verdade, compete à Prefeitura a fiscalização dessas edificações. O CREA fez algumas gestões meses antes com a própria Prefeitura, foi criada uma secretaria especial para esse fim, né? Nós fizemos algumas gestões junto a essa Prefeitura oferecendo os serviços, inclusive do CREA, na possibilidade de certificar essas edificações nas condições de atendimento à acessibilidade. Nós não tivemos êxito. E faltando 2 semanas, 3 semanas, o CREA não podia se furtar da obrigação de fiscalizar o atendimento das normas de acessibilidade. O que nós verificamos foi o seguinte: houve uma certa preocupação em atendimento às questões de acessibilidade. Mas faltou conhecimento inclusive a essa equipe técnica da Prefeitura do que são as normas técnicas.

Júlio – Mas não existia ninguém para cobrar na época?

Itamar – Não, o que fiscaliza é a própria Prefeitura, que fiscaliza a questão da edificação, do atendimento aos códigos urbanísticos, código de obra etc. e tal. Ao CREA, nesse caso, passaria a fiscalização do atendimento às normas de acessibilidade que nós fizemos. E acompanhado com toda a equipe, inclusive da Prefeitura, muitas delas. O que nós verificamos é que no atendimento às normas técnicas ela deixou a desejar. Por exemplo, um banheiro todo ele equipado com barras dentro das normas, mas com um batente acima da altura possível de uma cadeira de rodas ultrapassar essa barreira. Então, não adianta nada você ter um banheiro que seja totalmente acessível onde a cadeira de rodas não consegue ultrapassar aquela barreira. Então uma rampa, por exemplo, o Engenhão tem uma rampa monumental, onde você tem uma declividade na tangente dela que estaria dentro das normas. Mas acontece o seguinte: ela  foi feita numa extensão enorme, que é fora da norma, que o cadeirante não consegue vencer todo aquele trajeto.

Anderson – Só um atleta (risos).

Júlio – Tem que ser atleta (risos).

Itamar – E olhe lá!

Júlio – Acho que teve até na época uma reportagem de um cadeirante falando isso: “Olha, eu merecia uma medalha!”.

Itamar – São detalhes mínimos, mas são detalhes, acho que isso é importante frisar, que são detalhes que nessa hora inviabilizam toda a condição de acessibilidade. O Engenhão, saiu uma matéria no jornal fantástica logo depois onde eles colocaram o local determinado pro cadeirante marcado, tudo certinho. Agora, uma barra na frente em que o cadeirante sentado não conseguiria ver todos os jogos.

Júlio – Só via a barra.

Andrei – E os banheiros dos apartamentos, que tiveram que ser construídos nas cozinhas porque era impossível adaptar, fazer um banheiro adaptado para um atleta cadeirante. Qual foi a solução que eles deram? Transformar as cozinhas desses apartamentos em banheiros. O que é uma coisa totalmente irregular, até ilegal, porque você não pode ter tubulação de um banheiro em cima de uma cozinha, que era o caso do apartamento de baixo. Isso daí e, na véspera dos jogos eles ligaram para o IBDD pedindo ajuda porque eles tinham lá um monte de atletas cegos e deficientes visuais desorientados na Vila porque não existia sinalização em braille, se nós poderíamos confeccionar essas placas em braille para eles na sexta-feira antes do início dos jogos. Eu disse: “Amigo, hoje nós podemos fazer no máximo números de apartamento porque sinalização externa tem que ter material resistente ao sol, chuva e tal. Não dá. Como é que vocês vêm me pedir isso na véspera dos jogos?”

Anderson – E o interessante é que foi alertado desde a construção, a Andef, enfim, outras instituições, o país inteiro falando: “Nossa, tá faltando acessibilidade”. E o CO-Rio, que é o organizador dos jogos sempre tapando o sol com a peneira e a gente viu e infelizmente esse legado ficou aí.

Itamar – E aí essa que, respondendo finalmente essa questão, é o seguinte: Nós perdemos uma grande oportunidade. Então, hoje, praças esportivas, por exemplo, a Arena Multiuso é uma beleza. Quando você chega, poucas cidades no Brasil, eu acredito que nenhuma tenha um complexo esportivo daquela maneira. E, no entanto, peca por detalhes na questão de estar oferecendo as condições de acessibilidade. Porque é o legado. Nós queríamos que agora, poderíamos nos orgulhar do Rio de Janeiro ter hoje um parque esportivo que tem condições plenas de acessibilidade a todos os cidadãos.

Júlio – Bom, e o Rio de Janeiro como todo mundo sabe está reivindicando os Jogos Olímpicos de 2016, né? Pelo que se viu no Pan e no Parapan, eu acho que a gente vai ter que trabalhar muito, né? Vocês concordam?

Anderson – Concordo e eu acho que é já e desde já, né? Não adianta pegar um atleta Paraolímpico e levar para frente da televisão e “Queremos os jogos de 2016!”. Eu acho que tem que ter um termo de responsabilidade.

Júlio – Quer dizer, seria a hora então de organização.

Anderson – A hora, claro, e a gente não deveria deixar perder essa oportunidade e envolver todo o segmento da pessoa com deficiência.

Andrei – Mas Anderson, esse termo de responsabilidade existiu para os Jogos Pan e Parapan-Americanos. A carta de intenções, o Rio de Janeiro ganhou a condição de sediar esses jogos por conta dessa carta de intenções porque assumiu um compromisso de fazer tudo igual para os atletas com deficiência. Os Pan e os Parapan, fazer tudo igual. Essa era uma coisa colocada nessa carta de intenções.

Júlio – O fato de, por exemplo, da Câmara Municipal ter instalado uma CPI para discutir isso tudo, esse fato é muito positivo, né? Eu pelo menos vejo assim porque tá o Brasil pleiteando aí os Jogos de 2016.

Anderson – Eu acho que a gente precisa externar e eu fico muito triste porque a gente fez diversas sessões na Câmara, e não dá, a opinião pública, a mídia não tem comparecido, a não ser a TV Câmara, entendeu? Então eu acho que esse fato que ficou estabelecido na nossa cidade, isso tem que se tornar público. É um compromisso.

Júlio – Quer dizer, o problema da pessoa com deficiência passa muito pelo fato de ter pouco espaço na mídia, né?

Anderson – Com certeza.

Júlio – Todo mundo sabe disso, a gente acompanha o drama dessas pessoas e realmente essas associações e tal quase não têm espaço na mídia. E é justamente essa a pergunta que vem das ruas. Vamos ouvir?

Gustavo Magalhães – Meu nome é Gustavo Magalhães e eu gostaria de saber por que as pessoas que defendem os deficientes físicos têm tão pouco espaço na mídia?

Júlio – Bem Itamar, você responde essa?

Itamar – É, eu diria assim, não queria te contradizer nesse primeiro momento na sua pergunta, mas eu diria que a mídia já tem começado a dar uma atenção. Se nós formos fazer aí uma retrospectiva para cinco anos atrás, quatro anos atrás, eu acho que tem havido uma modificação bastante significativa na questão da mídia. Não importa muito, não vamos entrar no mérito como ela é colocada, muitas vezes de forma equivocada. Podemos até ver a televisão, as novelas, por exemplo, andaram tratando a questão do tema da acessibilidade, da deficiência, etc. e tal. Òbvio que ainda estão distantes, bastante distantes da necessidade que a sociedade tem de conhecer o problema, né? Mas eu diria que tem havido um esforço, quando eu digo, o CREA tem um grupo de trabalho de acessibilidade. Nós somos assim por diversas vezes acionados pela mídia procurando, interessados, curiosos. Acho que falta muito conhecimento, inclusive no meio jornalístico, a respeito do tema. Nós chegamos até a levantar a hipótese de oferecer um curso para jornalistas na questão de acessibilidade. Por que nós entendemos isso? Porque o jornalista, na medida em que ele está cobrindo a cidade no seu cotidiano, ele poderia ser um grande fiscal das condições de acessibilidade, porque se ele tem o olhar sobre acessibilidade, ele poderia estar a todo o momento denunciando questões que muitas vezes nós não temos condições de estar observando e ele que está no dia-a-dia, ele pode estar vendo isso. Acho que eu não gostaria aqui de dizer que a imprensa não está cobrindo, eu acho que está cobrindo, mas temos que fazer um esforço para que isso se amplie. Debates dessa natureza são fundamentais no sentido de divulgar essa questão, porque a sociedade começa a perceber, na medida que ela ouve falar, ela começa a ter o olhar diferente sobre essa questão, eu acho que o efeito multiplicador disso é muito grande, né? Na medida em que essa sociedade começa a ter essa consciência.

Júlio – Você concorda com ele, Anderson?

Anderson – Eu concordo, mas eu, por exemplo, eu sou uma pessoa que soube usar muito o meu espaço de esporte, né? Eu faço esporte desde 1988.

Júlio – É, mas é só um setor, aliás, muito importante.

Anderson – Não, mas na verdade eu transformo essa questão do espaço para reivindicar basicamente, mas o meu grande sonho, sabe qual é? Pra gente poder discutir realmente a questão de acessibilidade no país, um debate onde a gente pudesse botar o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, o prefeito da cidade de Niterói, o governador do Estado do Rio de Janeiro e o Presidente da República para eles poderem falar aqui na nossa cara, na nossa frente, com os seus telespectadores, por quê não tem compromisso? Porque as leis são claras, o direito de ir e vir está aí, bem colocado

Júlio – Quem é que dá a palavra final?

Anderson – Pois é, e porque que fica enganando a sociedade brasileira, fica enganando as pessoas com deficiência, porque o transporte tem que ser acessível, as edificações têm que ser acessíveis, e não dá mais. Eu vim da Austrália, um repórter sentou na cadeira de rodas às 8 horas da manhã. Ele pôde isso na Paraolimpíada de Sydney de 2000. Ele rodou a cidade toda de Sydney, foi aos pontos turísticos, foi aos estádios olímpicos. Pôde entrar dentro do hotel, deitar na sua cama e falar assim: “Nossa, que lugar bonito para as pessoas com deficiência!”. Porque que o Rio de Janeiro tem que ser diferente?

Júlio – Uma cidade maravilhosa que não é para todos.

Anderson – Uma cidade maravilhosa no nome, mas não é para todos, né? Eu acho que a gente tem que ter essa responsabilidade. Eu acho que essa coisa da opinião pública, da mídia, tem que criar essa questão de interior. A gente teve agora várias matérias do esporte paraolímpico, do futebol de amputados, as pessoas ficam maravilhadas. Dá para jogar bola, dá para nadar. É isso, eu acho que quando as pessoas, a sociedade, a mídia botar na sua cabeça que deficiência não foi feita para dar no poste ou num pedaço de madeira. Foi feita para dar na gente, e a gente vai ver que a vida não pode parar. Esse que é o grande dilema, eu acho que é a grande importância do meio de comunicação mostrar, não o sofrimento, mas sim mostrar essa capacitação, essa energia, a superação, que é a coisa mais bonita.

Júlio – Você tem problemas, convive com eles, Andrei, no dia-a-dia. Cada dia superando um obstáculo, tendo uma pequena vitória, isso deve ser muito importante, né?

Andrei – É verdade. A diferença é que eu não sou um mutilado de guerra norte-americano que voltou do Vietnã, entendeu? Porque os Estados Unidos, assim como o Japão, os Estados Unidos são o paraíso para as pessoas com deficiência. É verdade que isso não começou na época da guerra do Vietnã. Isso vem de antes, mas um país que sempre viveu em guerra e sempre teve seus mutilados e que ganharam uma força muito grande no caso da guerra do Vietnã porque era uma guerra antipatizada pela sociedade. Então os caras voltavam cheios de medalhas, né?, de prestígio e de poder político. Então eles chegavam e diziam “eu quero a minha cidadania plena” e acabou. E hoje nós temos um país que é o paraíso das pessoas com deficiência. Você tem todas as facilidades lá. O Japão a mesma coisa, teve até uma bomba atômica lá, em cima, para que a coisa se resolvesse. Mas aqui é um país em que se plantando tudo dá, só não dá a inclusão social. Porque nós não temos força política suficiente para exigir, fazer valer os nossos direitos e é disso que nós estamos precisando e é nesse sentido que a mídia vem ajudando bastante. Eu acho que é um trabalho recente, mas nos levantamentos nós vemos lá...

Júlio – Quer dizer, qualquer pouco que se dá já é muito.

Andrei – Exatamente. E não é pouco o que a gente quer, porque a gente quer tudo. E tudo não é muito. Porque se você já pensa a cidade, já projeta incorporando os parâmetros de acessibilidade, não existe problema nenhum. Aqui no Rio de Janeiro teve uma iniciativa muito interessante do Sinduscon, o IBDD fez parte, acho que o CREA também, enfim, de criar um guia de verificação em acessibilidade nas construções que será adotado pelas construtoras. O que é isso? A construtora contrata um projeto de arquitetura e eles tem esse guia que verifica a acessibilidade do projeto legal, que vai para a Prefeitura, que não exige nada em termos de acessibilidade. No projeto de arquitetura, que é a coisa mais detalhada, e até no projeto executivo, que é o que vai pro canteiro de obras, entendeu?

Júlio – Andrei, você falou aí em guerra e eu vou pedir agora mais um intervalo e no próximo bloco a gente vai falar de uma guerra que acontece aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, em qualquer lugar, que é a guerra do trânsito, que acaba sendo nessa guerra causando muitas pessoas com deficiência. A gente volta já, já.

Júlio – O RioTV Debate está de volta e agora a gente vai falar, entre outros assuntos, sobre a relação entre o grande número de acidentes de trânsito, a violência e, infelizmente, as pessoas com algum tipo de deficiência física. Vamos ver essa pergunta que vem das ruas.

Sérgio – Meu nome é Sérgio. Qual a relação entre acidente de trânsito e deficiente físico?

Júlio – Bom, Anderson, agora você responde essa.

Anderson – Pois é, lá na Andef, onde eu estou trabalhando, enfim, atendendo as pessoas, a gente tem um centro de fisioterapia que é um centro de fisioterapia voltado para a prática de esporte, para a inclusão, enfim, para a construção de cidadania. E hoje a gente fica muito triste porque os jovens estão sendo muito inconseqüentes com a questão do dia-a-dia, de dirigir. E um grande número de amputação, eu acredito que em torno de 80% dos casos que a gente atende lá na Andef, a maioria das amputações de pernas são de seqüelas de violência urbana devido a acidente de moto. Então hoje a gente tem aí seqüelando, botando muitos paraplégicos a irresponsabilidade com relação à condução no trânsito. Eu acho que a gente, no país, tem leis rígidas, mas eu acho que grandes campanhas estão faltando no nosso país, no Rio de Janeiro, para que as pessoas tenham um pouco mais de consciência, né?

Júlio – Até mesmo conhecendo a realidade das pessoas com deficiência, as pessoas ditas normais poderiam ter mais cuidado, respeitar mais as leis de trânsito.

Anderson – Pois é, porque hoje eu, hoje, com o esporte paraolímpico acompanhei em várias cidades do mundo o respeito ao pedestre e hoje a gente não vê esse respeito ao pedestre. São os ônibus também, além de não serem acessíveis, os ônibus estão em todas as horas aí acidentando, desrespeitando o cidadão dentro dos ônibus. A gente vê agora os microônibus também fazendo percurso, a permissão das vans e a falta de responsabilidade com esses motoristas, principalmente dos microônibus e das vans, que são uns inconseqüentes, não passam por treinamento nenhum e estão ai mutilando e criando pessoas com deficiências 24 horas no nosso dia.

Júlio – A bandalha é uma instituição aqui na cidade do Rio de Janeiro. Itamar!

Itamar – É, eu diria que não só no Rio de Janeiro. Eu acho que nós estamos passando por um problema muito sério no Brasil inteiro, do ponto de vista dessa violência, dessa desordem urbana. Por exemplo, quando você fala dessa relação entre a violência urbana do trânsito com a deficiência, o que se tem é o seguinte: a média mundial de pessoas com deficiência é em torno de 10%. O Brasil tem 14,5%, e se acredita que esse acréscimo, esse número acima da média mundial se deva no Brasil à questão da violência urbana e aí, no caso o trânsito, nós abrimos os jornais, a imprensa agora nesse final de ano nos deixou estarrecidos com relação ao número de acidentes nas estradas, nas ruas. A questão da bala perdida, o conflito urbano que está aí presente nas cidades e principalmente na cidade do Rio de Janeiro

Júlio – É uma questão de educação, né?

Itamar – Esse é um desafio grande. Esse é um grande desafio que temos que enfrentar porque, além dos problemas que nós temos dentro da média mundial, nós temos esse, além dessa média mundial, que é o estado de falta de controle das nossas cidades do ponto de vista do trânsito, do ponto de vista da violência urbana.

Júlio – Por falar em educação, na sua opinião, Andrei, a pessoa com deficiência, enquanto respeito, há amparo legal das escolas aqui do município do Rio de Janeiro ou não?

Andrei – Não, infelizmente não. Parece até que eu só sei dizer não, né? Mas a realidade é essa! Eu só queria ressaltar que essa associação entre trânsito e violência, teve agora o caso o filho do Lídio Toledo, o Lídio Toledo Filho, que ficou paraplégico, e até por amostragem, lá no IBDD, na administração, nós temos cinco cadeirantes. Três por acidente automobilístico, um por tiro num assalto e um apenas numa prática esportiva, que é o Luiz Cláudio Pereira, que teve uma tragédia no judô e ficou paraplégico praticando o esporte que ele tanto gostava. Mas veja só nessa amostragem o que você tem, né? Quer dizer, trânsito e violência.

Júlio – O filho do Lídio Toledo inclusive é médico e ortopedista.

Andrei – Quer dizer então, essa associação, ela vem contribuindo tragicamente para o aumento do número de pessoas com deficiência e com uma agravante no Rio de Janeiro, porque nós já não temos mais leitos para fisioterapia de reabilitação. O caso da ABBR é um caso exemplar de dramaticidade, porque a ABBR tinha leitos de reabilitação para pessoas com deficiência, era um centro de excelência na América Latina.

Anderson – Eu fui habilitado lá.

Andrei – Luiz Cláudio Pereira, Ana Cláudia, os nossos colegas funcionários do IBDD foram todos reabilitados lá. Não tem mais nenhum leito. E assim não existem mais leitos no Rio de Janeiro.

Júlio – Quer dizer, pelo que vocês estão dizendo aí as portas continuam fechadas, né?

Andrei – Não, se fecharam mais ainda porque esses leitos existiam há alguns anos atrás. E a ABBR foi sucateada!

Júlio – Quer dizer, não tem acesso à educação, saúde...

Andrei – Isso!

Júlio – Não tem acessibilidade.

Anderson – E isso ele está falando de uma coisa que é o ápice, porque sem reabilitação essa pessoa não vai ter educação, não vai ter trabalho, então é um descaso total, principalmente na área de saúde.

Andrei – E aí, o que acontece? Infelizmente, se você não é um deficiente, que sofreu um acidente e tal, que tenha condições financeiras para ter um tratamento particular, você recebe alta do Miguel Couto e pronto, é problema seu se virar, te põem no táxi e você fica dentro de casa. A pessoa sai de lá sem nenhuma cadeira de rodas.

Júlio – É triste.

Andrei – Entendeu? É uma realidade totalmente inconcebível.

Anderson – Não existe política pública para doação de órtese e prótese no Rio de Janeiro, entendeu. Isso quando o Andrei fala dos Estados Unidos, eu estive lá algumas vezes.

Júlio – É, você que viajou o mundo.

Anderson – A pessoa já sai de dentro de um centro de excelência de reabilitação com sua prótese de melhor qualidade, com sua muleta, com a sua cadeira de rodas de melhor qualidade. E hoje as cadeiras de rodas no Brasil, que muitas prefeituras doam sem ter programa, são cadeiras feitas onde são feitos carrinhos de feira, carrinhos de supermercado. É um descaso total. Você pode ter um produto de qualidade. Você tem como ter essa política pública, existe material muito bom no Brasil de órtese e prótese e as pessoas não conseguem. Porque ainda fica naquela questão, hoje lá na Andef chegam muitas pessoas dizendo: “Poxa, me arruma uma cadeira de rodas”. Uma pessoa se tornou deficiente. E isso é de direito do cidadão de estar recebendo aquele material para ele ter uma vida inclusiva, que a gente acabou sem uma órtese, sem uma prótese, ele sem as suas muletas, ele, graças a Deus pode comprar, aposto que não foi doada pro Andrei, né? Ele tem que se locomover, ele não vai ficar pulando, é aquela história do Saci Pererê...

Júlio – Você falou ainda há pouco em mercado de trabalho. Existem leis que garantem uma cota, né?

Anderson – É a lei 8.213, garante que as empresas com acima de 100 funcionários têm que ter nos seus quadros de 2 a 5% de pessoas com deficiências. A palavra, pessoas reabilitadas. O governo não promove nem essa reabilitação, se não fossem as nossas instituições.

Júlio – Justamente onde eu queria chegar. Quer dizer, existe a cota garantida por lei, mas não existe a reabilitação para a pessoa chegar lá.

Anderson – Não existe uma política pública para que a pessoa chegue lá. Positivo, você está amarrando agora com chave de ouro.

Júlio – Pois é, e eu gostaria que o Itamar comentasse isso.

Itamar – É, essa é outra discussão. Você vê que nós temos vários aspectos aí a serem discutidos. Outra é essa questão do mercado de trabalho. Você vê, nós estávamos falando da inclusão lá atrás, esse conjunto de ações que pode gerar esse conjunto, a inclusão das pessoas. Uma delas é a questão do trabalho. E o trabalho, ele precisa de uma capacitação também, não só da reabilitação no ponto de vista físico, motor e tal, mas do ponto de vista do próprio conhecimento. Se você for ver, há uma pesquisa muito interessante até, que a Febraban é que fez no Brasil, é onde termina mostrando o nível de renda dessa população e ela é extremamente baixa porque muito causada pela baixa escolaridade. Porque a baixa escolaridade? Por falta de acesso à educação e falta de acesso à educação, a questão da condição do trabalho e por aí vai. Então você ter uma política unicamente voltada para a definição de cotas não resolve em nada se você não tem uma política de suporte que habilite e dê condições e capacite essas pessoas a ocupar os postos de trabalho. Eu ouvi sempre dizer assim “Ah não, mas se ele é deficiente visual, bota como telemarketing”. Como se fosse quase uma condição, quase que direta, o fato de ser cego e ter habilidade para trabalhar em telemarketing.

Júlio – Um bom ouvinte, né?

Itamar – Não é por aí. Então eu acho que falta exatamente uma conjunção de políticas em que possa fazer com que a ocupação esteja apoiada num processo de capacitação.

Anderson – E o Rio de Janeiro tem isso de bom. Hoje no Rio de Janeiro até para os seus telespectadores existe uma Secretaria da Pessoa com Deficiência no município do Rio de Janeiro. Então é só embasar a antiga Funlar. Hoje nós temos uma secretaria nova, cheia de vontade, mas tem que ter vontade política. Sem vontade política, com pessoas comprometidas, a gente fala aqui, eu acho que as pessoas nos olhando que é emoção pura. Quando a gente quer reivindicar, lutar pelos seus direitos, a gente tem que estar embasado. E no Rio de Janeiro tem pessoas maravilhosas que podem ajudar a promover essa política pública de inclusão e ser referência para qualquer cidade. Aí sim o Rio de Janeiro se torna essa cidade maravilhosa e espelho com responsabilidade para todo o país.

Júlio – Ou seja, as pessoas têm que participar, tem que se agregar, tem que se unir, tem que reivindicar em conjunto, não é isso?

Andrei – É isso. Eu acho que as pessoas com deficiência estão totalmente incluídas, socialmente falando, nessa questão da educação porque a escolaridade é baixa para todo mundo no Brasil. Então elas estão totalmente incluídas ao resto da população brasileira na reivindicação por uma qualidade de ensino melhor. Agora, elas precisam antes de uma escola adequada para elas, que deve ter o ensino convencional e o ensino especial associados, essa é a nossa visão, porque existem graus de deficiência que vão exigir uma atenção especial, né? Não vai adiantar você botar uma pessoa com grau de deficiência intelectual muito comprometido, muito alto, em uma turma convencional porque ela vai chegar em um ponto que não vai acompanhar. Então você tem que associar esses dois tipos de educação. Só que como é que essa criança vai chegar na escola se ela não tem ônibus adaptado, se ela não tem um transporte adequado? Nós ganhamos uma ação agora também para que uma criança deficiente pudesse ser transportada para a escola. Mas ela chega lá e não tem um professor preparado. Os professores não estão preparados nem para o ensino convencional, como é que vai ser para essa criança? Nesse sentido, ironicamente nós estamos incluídos 100%.

Júlio – Bom, a gente viu aqui durante essa conversa que há muito que se fazer, não é Andrei?

Anderson – Estamos disponíveis para estar ajudando o Rio de Janeiro nesse sentido.

Júlio – É aquela história, as pessoas se unirem, debaterem e discutirem o problema.

Anderson – E implementarem.

Júlio – E implementarem e fiscalizarem também, né?

Júlio – Bem, o nosso debate está chegando ao fim, até mesmo por uma questão de tempo. Eu quero agradecer a presença dos senhores e tendo a certeza de que a nossa discussão que durou aqui praticamente uma hora, mais um pouquinho, tenha contribuído para engrandecer a causa das pessoas com deficiência. E eu quero aproveitar também a ocasião para lembrar ao telespectador que a RioTV durante a sua programação vai exibir um documentário sobre esse assunto, o assunto da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência, mas é a história de um casal, os dois com algum tipo de deficiência e a filha não tem. É um documentário imperdível de Suely Nascimento. A gente vai passar isso durante a nossa programação. Bom, antes de colocar o ponto final, as considerações finais. Vamos começar com o Itamar.

Itamar – Bom, eu gostaria de agradecer o convite, parabenizar a RioTV Câmara por esse debate, entendendo que com essa iniciativa vocês estão contribuindo decisivamente para essa discussão. Exatamente para que a cidade do Rio de Janeiro venha exatamente se tornar esse espelho como se deseja. E agradecer, colocar o CREA  Rio de Janeiro à disposição. Nós estamos aí bastante empenhados nessa luta e estamos à disposição para qualquer outro convite.

Júlio – Anderson.

Anderson – Bem, agradecer a oportunidade. Eu acho que são poucas as oportunidades que temos, mas, dar os parabéns a esse programa para que a bandeira da cidadania, das pessoas com deficiência seja respeitada. Para quem está em casa e tem alguém portador de deficiência, eu deixo a Andef à disposição. Depois vai ter o endereço e o telefone. O site da Andef é www.andef.org.br e pro poder público, que tenha mais responsabilidade com suas ações, com a causa da pessoa com deficiência, de grande parte da população que quer sair de dentro de casa, quer ter o direito à vida que é a coisa mais principal de tudo.

Júlio – Andrei.

Andrei – Júlio, eu quero parabenizar a iniciativa da RioTV Câmara, agradecer o convite e espero que esse debate contribua para que a CPI do Parapan chegue aos responsáveis pelo que nós chamamos de “o crime do Parapan”, pela discriminação que foi cometida lá. Fora isso eu também quero colocar à disposição o IBDD, chamando a atenção para que o instituto realiza todos os anos cursos gratuitos para pessoas com deficiência e faz também o encaminhamento de pessoas com deficiência para o mercado de trabalho. Se você é pessoa com deficiência e é diplomado, tem alguma qualificação profissional, pode enviar o seu currículo para nós pelo site www.ibdd.org.br, ou se você não tem qualificação profissional, também pode nos procurar e se inscrever num dos cursos que são oferecidos gratuitamente para as pessoas com deficiência.

Júlio – Bom, mais uma vez obrigado aos senhores. O RioTV Debate volta na próxima semana com um tema de importância para a nossa cidade do Rio de Janeiro. Então até lá e muito obrigado pela audiência.

 

Rio, 4 de março de 2008