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Item: IBDD - Notícias

 

 

Mercado de Trabalho para deficientes

Reportagem do Jornal das Dez (Globo News)

(Clique aqui e veja a reportagem)

Transcrição:

 

André Trigueiro – O mercado de trabalho abre as portas para pessoas com deficiência. No ano passado as contratações atingiram número recorde em todo o país. Mais de 22 mil vagas foram preenchidas, um crescimento de 12% em relação a 2006.

 

Ana Carolina Raimundi – Marco Antônio convive com as seqüelas da poliomielite, que teve com 1 ano de idade. Mas a dificuldade para caminhar não o impediu de estudar, trabalhar e ter uma vida independente. Ele, que tinha o segundo grau completo, fez um curso de especialização em uma entidade que apóia pessoas com deficiência e garantiu o seu espaço.

 

Marco Antônio Muniz – Eu fiz esse curso de especialização em contabilidade.

 

Ana Carolina – A lei que estipula cotas para pessoas com deficiência em empresas com mais de 100 funcionários é de 91. Mas só nos últimos anos ela efetivamente vem sendo cumprida.

 

Rogério Lopes Costa Reis –  Essa ação vem sendo desenvolvida pelo Ministério do Trabalho desde 2000 e cada vez a gente tem aperfeiçoado mais a cobrança disso nas empresas.

 

Ana Carolina – Dados do Ministério do Trabalho mostram que no ano passado, em todo o país, foram 22.314 contratações, um crescimento de 12% em relação a 2006. A região Sudeste lidera o ranking com 12.132 novos contratados. Em seguida vem a região Nordeste, com 4.704. Depois as regiões Sul, Norte e Centro Oeste.

 

Ana Carolina – João Bento, de 25 anos, foi um dos beneficiados com o primeiro emprego. Ele tem um tipo de deficiência mental e começou na empresa como empacotador e já faz planos para crescer em outras áreas.

 

João Bento – Padaria ou estoquista.

 

Laura de La Pisa – 98% de todos os nossos clientes avaliados demonstraram total satisfação.

 

Ana Carolina – Essa rede de supermercados emprega 256 pessoas com deficiência. Só nessa filial são 19, números já superiores aos exigidos por lei. Mas as empresas que pelo tipo de trabalho não conseguem contratar esses profissionais podem recorrer ao cumprimento alternativo da cota.

 

Teresa Costa d’Amaral – Elas podem apoiar um curso numa ONG que trabalhe com o deficiente. Pode apoiar seminários. O que o IBDD faz é procurar, através do apoio ao curso, trabalhar a empregabilidade do deficiente.

 

Ana Carolina – Mas apesar do número recorde de contratações em 2007, ainda sobram vagas. Só em São Paulo, estado líder em número de novos contratados, existem 150 mil vagas em aberto. Alex Vicenti trabalha com a inclusão de profissionais com deficiência no mercado. Ele acredita que a qualificação, principalmente em níveis mais altos, ainda é um obstáculo para a ocupação dessas vagas.

 

Alex Vicenti – A gente não consegue nem cumprir cota com o auxiliar administrativo, que são funções, cargos de entrada na empresa. Que diga cargos de alta qualificação. Proporcionalmente a gente já avançou bastante, mas ainda tem muito a ser feito. E eu acho que a gente deve começar pela questão base, a gente tá falando de inclusão no mercado de trabalho, mas a inclusão tem que começar na escola, ou seja, na escola primária.

 

André – O setor metalúrgico fez com que São Paulo se tornasse o estado onde há mais contratações de deficientes. Vamos para lá, então. Boa noite, Carla Lopes. Qual é o segredo do mercado paulista?

 

Carla Lopes – André, é a lei do bom senso e um pacto entre os sindicatos e órgãos da prefeitura, do trabalho, para a inclusão desses empregados. Na região de Osasco, na Grande São Paulo, formada por 11 municípios, 97% das vagas para deficientes em metalúrgicas estão preenchidas. A maior fabricante de autopeças do país é uma delas.

 

Ricardo Lessa – Carlos tinha acabado de completar 18 anos. Na véspera do Natal de 2001 foi buscar sal grosso no posto para o churrasco da família. Não voltou para casa. Um carro em alta velocidade arrancou-lhe a perna abaixo do joelho.

 

Carlos Silva dos Santos – Para mim a minha vida já tinha acabado a partir daquele momento. Eu achava que ia ser diferente de todos, que não ia conseguir mais arrumar namorada, a namorada não ia querer ficar comigo, emprego.

 

Ricardo – Carlos trabalhava com o pai desde os 7 anos. É padeiro, confeiteiro e teve que mudar de profissão.

 

Carlos – Só lembro mesmo, realmente, que estou sem a minha perna quando eu tinha que correr, jogar bola, aí eu sei que não dá realmente, mas para trabalhar tá sossegado.

 

Ricardo – Essa empresa é a maior fabricante nacional de autopeças. Tem mais de 2.000 funcionários, entre eles 114 deficientes. Mas nem por isso a lucratividade da empresa foi baixa, foi cerca de 25% em 2006. No ano passado, caiu para em torno de 15%, mas não por causa dos deficientes, por causa da concorrência chinesa.

 

Vitor Mammama – O deficiente às vezes até produz mais do que o normal. O que é importante é que o deficiente seja contratado como uma pessoa igual, com as mesmas obrigações e com os mesmos direitos.

 

Ricardo – O deficiente não tem moleza aqui?

 

Vitor – Nenhuma. Teve deficiente que já foi mandado embora por justa causa e teve deficiente que já chegou à liderança.

 

Ricardo – Essa fábrica emprega deficientes mesmo antes da lei das cotas. Mas foi a obrigatoriedade a partir de 2000 que levou outras metalúrgicas e todo o estado de São Paulo a bater recorde de contratação de deficiente, já são cerca de 80.000.

A experiência de fiscal do trabalho de Lucíola mostrou que só multar não dá resultado.

 

Lucíola Rodrigues Jaime – Em São Paulo nós estamos agindo como agentes de transformação social. Nós chamamos as empresas, sensibilizamos através de palestras e orientações. Ensinamos as empresas como elas precisam fazer para cumprirem a lei de cotas e concedemos prazos de até 8 meses.

 

Ricardo – Erisvaldo se habituou a se comunicar por sinais com Reginaldo, que é surdo mudo. Os dois têm a mesma origem. Filhos de famílias nordestinas, vieram para São Paulo em busca de trabalho.

 

Erisvaldo Ferreira da Silva – Lá no Norte é trabalho de campo. Eu, como tenho deficiência física, fica complicado para mim, lá é mais enxada, foice. E aqui não, eu superei uma coisa que eu não esperava superar, que é um trabalho, agora que eu tenho.

 

Ricardo – Erisvaldo era dependente da mãe e hoje manda ajuda para a família.

 

Ricardo – Só falta arrumar agora esposa e filhos?

 

Erisvaldo – Uma esposa, eu tô à procura dela.

 

Ricardo – Casamento Renildo já conseguiu. Agora ele é o Titânio 2, apelido que adotou no crachá. Treina remo e natação para disputar as Paraolimpíadas. Na prova de samba ele já é campeão.

 

Carla – Uma das ações da Superintendência do Trabalho em São Paulo é dar mais prazo para as empresas cumprirem a lei. E em contrapartida elas têm que criar um banco de dados desses trabalhadores, capacitar os profissionais e promover campanhas de combate ao preconceito aos deficientes. André!

 

André – Muito legal isso, Carla.

 

 

Rio, 4 de março de 2008