
Vagas para deficientes não são respeitadas
Reportagem do programa Balanço Geral, da TV Record, com João Carlos Farias, do IBDD
(Clique aqui e assista à reportagem)
Transcrição:
Wagner Montes – Agora veja só a falta de respeito com os portadores de deficiência física. As vagas especiais, eu tinha falado isso logo no começo e um policial militar amigo meu me chamou a atenção, falou: “Mas antes você falou desse negócio de deficiência física e depois falou...”. Aí eu falei: “Olha, vocês têm que me ajudar”. Eu sempre digo isso, e tenho humildade para dizer “me ajudem, mandem sugestões, liguem”, cagüeta onde está errado e nós vamos lá buscar! As vagas especiais dos estacionamentos são ocupadas muitas vezes indevidamente por outros motoristas.
A maioria nem percebe e nem parece se importar com o transtorno. Letícia Gil!
Letícia Gil – A cidade do Rio tem 44 mil vagas no sistema Rio Rotativo, 443 delas destinadas a portadores de deficiência. Mas nem sempre essa regra é respeitada. Um problema que também acontece aqui, em frente ao Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Vou conversar agora com o João Carlos, ele é sociólogo aqui do Instituto. João Carlos, é um problema que acontece com freqüência?
João Carlos – Infelizmente, pela falta de fiscalização e pela falta de comportamento da população.
Letícia – Como é que acontece aqui, em frente ao Instituto? As pessoas pedem desculpas, pedem licença, como é que acontece?
João – As desculpas mais esfarrapadas possíveis, né? Essas três vagas aqui, elas não existem porque nós somos, digamos assim, bonitos. Porque há uma necessidade de existir, principalmente para sair do carro, porque o uso do carro não é uma opção de lazer. É obrigação pela falta de transporte na cidade.
Letícia – Bom, agora a gente vai acompanhar o João Carlos, que é portador de deficiência, em outros pontos da cidade para saber se ele realmente tem dificuldade para conseguir estacionar o carro. Porque não é só aqui no Catete, não é, João Carlos, que existe essa dificuldade para estacionar?
João – Infelizmente não. Isso é uma situação que está em toda a cidade do Rio de Janeiro.
Letícia – Então vamos embora?
João – Vamos embora agora.
Letícia – O carro se tornou uma ferramenta importante para que você possa fazer todas as tarefas do dia?
João – Você não pode contar com o transporte coletivo, você não tem metrô adequado.
Letícia – Você já passou por alguma situação constrangedora ao tentar fazer valer o seu direito?
João – Muitas. Uma delas, em uma situação de carro, eu fui tentar estacionar na Uruguaiana, as vagas estavam ocupadas. Chamei o policial que cuida da área e ele pediu para eu não atrapalhar o serviço dele e ir embora. Mais na frente encontrei outro policial, pedi ajuda no sentido de que, já que estava ali na Rua Uruguaiana, no consulado, ali, com vaga reservada, para que eu pudesse usar aquelas vagas já que eu estava atrasado para um curso, e ele falou: “ Não posso não”. Ou seja, o meu destino foi estacionar lá na Central e retornar tocando a cadeira de rodas.
Letícia – Chegamos à esquina da Rua Uruguaiana com Buenos Aires no centro da cidade. Aqui, uma placa indicando que há uma vaga para portador de deficiência física. Só que os carros estacionados debaixo da placa não apresentam esse selo, que indica que é um carro usado por deficiente físico. Bom, aqui vai ser difícil para o João Carlos conseguir vaga, né?
João – É, agora vou ter que ficar rodando, porque não tem como eu ficar descendo do carro e ficar procurando um policial para que me ajude.
Letícia – A gente vê aqui que é uma vaga para deficiente, tem uma placa ali e a gente vê que vários carros que estão aqui não têm nenhum adesivo para mostrar que é deficiente. Os guardas não viram?
Luiz Carlos da Silva – Olha só, esse serviço aí é com o pessoal do trânsito. O nosso serviço aqui é para retirar os camelôs daqui de frente da rua. Nós trabalhamos aqui para retirar os camelôs, esse trabalho aí é do pessoal do trânsito. Eu nem sei se eles têm autorização ou não para ficar aqui.
Letícia – A gente viu ali que é um estacionamento para duas vagas para portador de deficiência. Mas só um deles tem o sinal, o outro não tem por quê?
Alezir Borges – O rapaz colocou ali, mas ele vai tirar já, já. Ele só foi tomar um café aqui no bar e já vai tirar, pode deixar. E mesmo se ele não tirar, eu chamo o rapaz e tiro o carro do rapaz para o deficiente entrar.
Letícia – Inclusive não tem nem talão no carro dele.
Alezir – Mas ali não pode botar talão porque é vaga de deficiente, entendeu?
Letícia – Destinado para deficiente. Por que você parou aqui?
Irapuan Negreiros Fernandes – Não sei te informar, eu sou o manobrista.
Letícia – O manobrista?
Irapuan – Isso.
Letícia – Agora, porque a pessoa estacionou aqui?
Irapuan – Também não sei informar.
Letícia – Na Avenida Graça Aranha o problema se repete. Há uma placa indicando que há duas vagas para portadores de deficiência física. Mas uma delas está ocupada irregularmente.
Letícia – A gente viu ali que tem alguns carros que ocupam a vaga de portadores de deficiência. A guarda municipal tem como intervir nisso ou não?
Guarda Municipal – Tem e eu tô indo lá para isso, a pedido de um senhor aqui também, que está tentando estacionar.
Letícia – Enquanto isso o João Carlos ficou aqui aguardando e por pouco não levou uma multa. Foi advertido pelo guarda municipal?
João – Olha, eu espero que não tenha tomado uma multa. Foi difícil fazer ele entender que eu estava parado irregularmente porque, na verdade, não tinha como eu estacionar na vaga reservada para mim.
Wagner Montes – Olha, isso acontece, isso acontece dentro de shoppings. Aliás, a bem da verdade, eu aqui dou nomes, no Norte Shopping! Lá funciona porque lá eles cercam com aquela fita amarela e preta e lá não entra vagabundo nenhum para botar o carro em cima da vaga de deficiente físico. Agora, dentro dos shoppings você não pode agir. Isso que é impressionante, você sabia Heraldo? Dentro dos shoppings a Ptran não pode agir, a Guarda Municipal, o pessoal destinado ao trânsito, não podem agir dentro do shopping porque é propriedade particular. Isso que acontece dentro do shopping é a toda hora. Na rua também, aquele senhor que estava lá no trânsito. A Guarda Municipal vai avaliar a conduta do agente que você viu agora há pouco na reportagem. De acordo com a Guarda Municipal, os agentes podem e devem multar os carros que ocupam as vagas de deficientes. Eles também podem acionar o reboque para remover o veículo, e esses guardas municipais pelos quais eu luto tanto, eles sabem disso. Luto para serem estatutários, têm que ser, têm que fiscalizar esses caras que são abusados. Eles param na vaga de deficiente físico mesmo!
Tem que ter esse selo aqui, de deficiente físico. O cara pára na vaga. Eu, outro dia, acho que foi quarta ou quinta-feira, eu fui ao centro da cidade e estava um cara parado na vaga, aí o cara: “Ah, eu fui ali tomar um café”. Vai tomar café na casa do... do tio, pô! Aí vem parar na vaga do deficiente físico, aí chega o deficiente e não pode parar porque o bonitão parou o carro. Comigo, se parar na vaga eu paro o meu e tranco o dele. Tranco, fecho a porta do carro e levo embora. Vai mandar rebocar o meu, e tranco legal hein! Eu tranco legal! Eu quero ver! O cara está aqui, estacionado na vaga, eu boto aqui ao contrário. Vai, sai agora! Às vezes o cara sai com pressa e fala: “De quem é esse carro aqui?” E ainda reclama! Tem uns caras de pau que ainda reclamam, rapaz! De quem é esse carro que parou aqui? Eu parei aqui, seu muquirana, porque você parou na vaga do deficiente físico, seu prego. Então vai ficar o carro aqui parado e você vai tomar uma canseira agora também. Qualquer coisa, eu fui tomar café. Esses caras são abusados para cacete! O que é que há? Pensam que estão acima da lei, o que é que está havendo? Aqui ó, vou dizer um negócio para vocês: o mal do urubu é pensar que todo boi está morto. Abre o olho, hein!
Rio, 25 de março de 2008 |