Desfile de moda em Angola
Misses amputadas pela guerra no país mostram sua beleza
“O grande momento será quando as 18 mulheres subirem ao palco mostrando o ‘glamour’ que as minas terrestres escondidas não apagaram", lembrou Maria Teresa Jacob. Aos 18 anos, estudando na 10ª classe, ela vê, assim, ‘cumprir um sonho que não sabia que tinha’, o de participar de um concurso de beleza, uma paixão antiga.
O inimigo traiçoeiro e invisível apareceu no caminho de Maria Teresa quando ela tinha sete anos, em Kalekembe, Huila, durante um passeio com a sua avó. Ficou sem uma perna, mas não deixou de caminhar para continuar construindo a sua vida, mesmo que "tenha sido muito difícil ficar na escola".
O grande problema de Maria Teresa é poder sustentar a sua ambição de continuar a estudar e ‘a maka (problema) do dinheiro’, porque é disso que se precisa quando não existem outros apoios para "ir fazendo" o tal caminho.
Maria Teresa é, apesar de tudo, uma privilegiada, tendo em conta que das 18 "misses" é a única que conseguiu chegar longe na escola.
"É muito triste reparar que muitas destas pessoas" - apontando para as outras 17 concorrentes - "nem sequer foram à escola ou então não passaram da segunda classe por causa disto". E "isto" são as pernas e os corpos amputados.
Com uma postura diferente da de Maria Teresa, Margarida José é lacônica quando confrontada com a questão sobre o futuro: "Não melhorou nada na minha vida ainda!" a condição de "miss minas". Mas deixa cair para o fim da frase o "ainda!", palavra que dita solta em Angola pressupõe uma expectativa de que algo mude em breve. Margarida José tinha 20 anos quando, a caminho da lavoura, na província do Zaire, norte de Angola, viu a sua perna esquerda estilhaçada por uma mina. "Caí de manhã cedo, cheguei ao hospital à noite".
Para o futuro, Margarida José não quer muito. Alguma independência para ela e para sua filha de 14 anos. Para isso, espera que a participação neste concurso lhe permita conquistar apoios para uma idéia antiga.
"Quero poder criar uma cantina no Zaire, onde as pessoas possam ir comer. Que possam ter a certeza de que existe uma refeição antes de poderem pensar em soluções para as suas vidas". Eventuais apoios? "Espero que o governo provincial me apóie, apoiando também todos os outros necessitados".
Albertina Rosa repete uma história de vida tão trágica quanto as outras. Tantas vezes contada que, como diz, parece que "quanto mais se conta mais se esquece".
Albertina ficou sem a sua perna esquerda em 1995, quando o veículo em que viajava acionou uma mina. "Saía da casa dos meus pais, na comuna do Lucapa, para o Dundo (capital da província) quando... pummm".
Na oportunidade, tinha 24 anos. "Senti-me muito mal depois do acidente, não conseguia imaginar como iria ser a minha vida depois daquilo", disse.
Mas este sentimento, segundo Albertina, passou e a esperança voltou quando em 1997 surgiu a possibilidade de ir a Luanda, capital de Angola, colocar uma prótese.
"Antes eu andava de muletas e era tudo muito difícil, mas depois, com a prótese, passei a encarar a minha vida com mais facilidade", frisou.
A prótese é fundamental. Se não muda uma vida, este aparelho pode pelo menos mudar a forma como esta é encarada.
O prêmio para a candidata que ganhar o concurso Miss Sobrevivente de Minas é uma prótese moderna.
Só que para Albertina, "ser moderno é não discriminar. É apoiar quem precisa apenas de uma oportunidade..."
Na quarta-feira, o Hotel Trópico, no centro de Luanda, assiste à tentativa de mudança de vida destas 18 mulheres que dizem representar as milhares de vítimas das minas terrestres em Angola, "um bocadinho hoje, muito amanhã", como disse à Lusa a concorrente de Benguela, Maria Teresa.
Apesar de todos os esforços do programa de desminagem, as Nações Unidas alertam para a existência de dezenas de milhares de minas que permanecem espalhadas pelo território de Angola, considerado o país com mais campos minados de todo o continente africano.
Segundo dados do último relatório sobre as minas em Angola, da Electronic Mine Information Network (uma rede de informação sobre minas), mais de dois milhões de pessoas foram afetadas por explosões de engenhos explosivos no país.
Por ano, entre 300 e 400 pessoas morrem ou perdem membros do corpo em Angola.
Elsa Cristina Neto, da sub-comissão de Apoio à Reinserção Social da Comissão Nacional Intersetorial de Desminagem e Assistência Humanitária em Angola, sabe que não se podem apagar do mapa todos os engenhos enterrados por todo o país há mais de 40 anos.
Mas sabe que se pode combater o estigma social a que as amputações sujeitaram estas mulheres. E lembra que esta iniciativa tem esse objetivo. O projecto Miss Sobrevivente de Minas 2008 foi idealizado pelo artista norueguês Morten Traavik, seguindo a tradição de concursos de beleza em Angola.
O concurso de beleza Miss Sobrevivente de Minas 2008 conta com a colaboração do governo angolano, através da Comissão Nacional Intersetorial de Desminagem e Assistência Humanitária (CNIDAH).
Financiado pela União Européia, a mais bela será conhecida em abril, no Hotel Trópico de Luanda, onde as candidatas vão ser avaliadas pelo juri. "Temos que dar uma atenção especial às mulheres vítimas de minas porque a sua condição de gênero já é por si um problema e são elas as principais vítimas deste problema", frisou.
Fonte: Blog Em Dia com a Cidadania – por Márcia de Almeida
(www.emdiacomacidadania.com.br)
Rio, 3 de abril de 2008 |