Agarrando a vida com uma única mão
Nicholas Shakespeare fala como uma amputada aprendeu a sobreviver - e abraçar - seu novo momento
Um pouco antes do seu aniversário de 10 anos, Sarah Anderson, uma menina de classe alta católica que vivia em Knightsbridge, na Inglaterra, descobriu um nódulo cancerígeno no seu cotovelo esquerdo e lhe deram alguns meses de vida. Os médicos recomendarama amputação.
Ela havia sido fotografada por Lorde Snowdown ( "assim pelo menos eu teria um registro de como eu parecia antes") e fez o papel de Nossa Senhora no Auto de Natal da escola. Quando ela levantou os dois braços, cantando Magnificat, "deve ter ocorrido em todos a idéia de que eu não poderia fazer aquilo novamente."
"No meio do caminho para Venus" é o relato de uma sobrevivente do que é viver sem um braço. Anderson descreve sem retoques o impacto de uma amputação que pode ter sido desnecessária e sua longa batalha contra o comportamento das pessoas, sobretudo o medo delas. Ter só um braço, ela escreve, era "um segredo visível" que provocava olhares encabulados, perguntas idiotas e eufemismos desajeitados.
Ela conta de um amigo que insistia em sentar ao lado dela no teatro para dar uma mãozinha na hora de aplaudir, do professor que se preocupava com o pulo na hora dela fazer salto e machucar o seu braço cotó. Cotó, bracinho, Anderson ainda não encontrou um nome razoável para a parte do seu braço que sobrou.
"Nós nos definimos pelo que perdemos" lhe diz um frei beneditino. Ela sente pena de não usar o plural de mão, ou cruzar os braços, ou fazer corrupio. Mas ela aprendeu que não tem nada que ela não possa fazer ou tentar fazer por si mesma.
Ela viaja. Ela abre sua livraria especializada em viagens, uma instituição com sofás, cafezinho e atmosfera da livraria Shakespeare & Co. em Paris (Hugh Grant em Nothing Hill, lembra?). Tem amantes que leva para seu apartemento em cima de sua livraria.
Sem reservas sobre sexo, Anderson explora com espanto horrorizado o fenômeno dos fetichistas que se sentem atraídos por amputados.
Esquentada, terna, impiedosa, o resultado é um livro fascinante e enriquecedor que trata "o assunto de como pessoas lidam com qualquer coisa que não seja familiar" e ensina que não existe nada a se temer.
'Halfway to Venus: A One-Armed Journey' by Sarah Anderson, Umbrella Books 
Rio, 16 de maio de 2008 |