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Item: IBDD - Notícias

 

 

A vitória no STF

Entrevista de Andrei Bastos sobre a aprovação das pesquisas com células-tronco embrionárias

(Clique aqui para ouvir a entrevista)

Transcrição:

 

Redação Nacional entrevista.

 

Denise – Passada a discussão sobre a constitucionalidade da lei de biossegurança, nós vamos ouvir agora sobre uma parcela da população que tem grande expectativa na continuidade e no avanço das pesquisas. Vamos conversar com o assessor de Comunicação do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Andrei Bastos. Bom dia, Andrei Bastos.

 

Andrei – Bom dia Denise, é um prazer falar com você sobre esse tema fantástico.

 

Denise – Pois é, Andrei, eu queria que você dissesse pra gente como é que vocês do IBDD, Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência, receberam esse resultado da votação?

 

Andrei – Com muita alergia, Denise, porque isso representa esperança para milhões de pessoas que se tornaram deficientes por conta de acidentes, como os paraplégicos, os tetraplégicos, ou por conta de uma doença como o câncer ou outras doenças, que podem agora ter esperança de cura com as pesquisas das células-tronco embrionárias.

 

Denise – Como é que vocês, qual foi a mobilização de vocês do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência e de outras instituições, outros movimentos, para acompanhar essa votação, e até para que a população possa entender também, qual é o interesse na aprovação da continuidade das pesquisas?

 

Andrei – Pois é. Nós nos mobilizamos intensamente no país todo, porque nós entendemos que, assim como estamos expostos aos  riscos oferecidos pela exploração mercadológica dessas pesquisas, nós também estamos expostos ao que representa a atitude daquele pastor que disse aos cadeirantes, lá em Brasília, que nós deveríamos nos curar pela fé. Não que eu seja uma pessoa que não tenha fé, eu tenho fé. Mas todos nós entendemos que a ciência e a medicina são fundamentais nesse processo de cura. Ou seja, nós precisamos dispor desses instrumentos que a ciência pode oferecer para que nós possamos lutar pela vida, e foi o que aconteceu. Uma vitória na luta pela vida no Supremo Tribunal Federal. Esse é um direito que todos nós temos e a consciência de cada um é que vai dizer como usar esse instrumento, ou seja, as armas estão aí para as pessoas cometerem crimes, sejam crimes de mercado, sejam crimes de ilusão, das pessoas oferecendo curas fantasiosas. As pessoas agem de acordo com a sua consciência.

 

Denise – Pois é, e aí essa questão da consciência é uma discussão que ficou muito forte ao longo desse processo, foi quase uma questão de religião versus ciência, religiosidade versus ciência, inclusive o voto do ministro Eros Grau começou argumentando nesse sentido, né? Ele dizia que via ali não um debate entre religião e ciência, mas um debate entre religião e religião, alegando que as pessoas que estariam do lado da ciência e não do lado da religião estariam sendo quase tão dogmáticas quanto os religiosos. Queria só que você aprofundasse um pouco nisso porque não é, como você bem disse, não é descartar a fé, mas é contar também com o avanço da tecnologia e da ciência, não Andrei?

 

Andrei – Exatamente. Quer dizer: essa contradição, esse embate não existe, ele é falso porque sempre foi assim. Nós não podemos agora correr o risco de condenar os cientistas como na história nós já fizemos outras condenações, Galileu e por aí vai. Então, o STF fez história porque colocou com bastante clareza e é válida essa argumentação contrária. Os votos dos ministros foram muito bons porque eles colocavam os argumentos todos de um lado, condenando, e depois apresentavam argumentos mais fortes ainda aprovando. Então isso é bom porque fortalece a convicção de que a ciência é uma poderosa ferramenta para a luta pela vida, e isso nós não podemos negar e não podemos deixar de aceitar, como a esperança para milhões de pessoas. Não vai ser para a minha geração ou para a geração dos meus filhos, mas essas pesquisas têm que avançar para que o mais rápido possível sejam encontradas essas soluções. Então não existe esse embate entre fé e ciência, as duas têm que caminhar juntas no sentido da felicidade humana. É para isso que nós estamos aqui.

 

Denise – Agora você coloca essa questão desses avanços, do resultado dessas pesquisas terem que acontecer com uma certa velocidade, uma certa rapidez, mas vocês mesmos têm consciência de que não estão lutando pelas suas próprias causas, vocês estão lutando pelas causas de outras pessoas que vão poder vir a ser beneficiadas pelas pesquisas.

 

Andrei – Evidente, porque nós temos consciência do problema, nós vivemos o problema. Eu, por exemplo: a minha deficiência é resultado de um câncer, eu amputei uma perna por conta de um câncer. Se essas pesquisas já estivessem avançadas ao ponto que pudessem interferir no processo da minha doença, eu não só não teria sofrido com a doença como não teria adquirido uma deficiência. Da mesma forma, uma pessoa que sofre um acidente de automóvel e tem a medula lesionada, pode encontrar soluções para o problema dela. Então, essa consciência nós temos, isso não é mágica, a ciência não faz mágica, nem mágica do espetáculo circense e nem mágica das pregações religiosas fanáticas, né? Quer dizer, não existe mágica aí, existe muito trabalho. E um trabalho que pode demandar muito tempo, mas que tem que ser estimulado.

 

Denise – Agora é um trabalho que pode demandar muito tempo, é um trabalho que ainda hoje é muito caro, Andrei Bastos. E aí eu queria que você falasse um pouquinho ainda nessa perspectiva da luta pelos direitos da pessoa com deficiência, qualquer que seja essa pessoa com deficiência, tendo ela condições de pagar por um tratamento ou não, queria que você falasse do acesso também que a lei de biossegurança, ela estabelece algumas regras na utilização dessas células embrionárias, mas não tem nada, pelo menos não que eu tenha conhecimento, não tem nada muito claro no sentido da aplicação do resultado dessas pesquisas.

 

Andrei – Você tocou num ponto importantíssimo, que é a questão do acesso no que diz respeito às possibilidades financeiras das pessoas. Em primeiro lugar, se essas pesquisas não fossem aprovadas aqui, só poderiam se beneficiar delas as pessoas que tivessem dinheiro para se tratar no exterior, e isso reduz drasticamente o número de pessoas. Em segundo lugar, mesmo elas sendo caras, quer dizer, com o avanço dos estudos, da ciência, elas estarão disponíveis nos serviços de saúde públicos, como você tem o Inca, por exemplo, que é uma referência no tratamento do câncer. E lá as pessoas que não têm dinheiro para fazer tratamentos em hospitais particulares e caros podem ter um atendimento adequado. Sem dúvida isso acontecerá também com essa questão envolvida na pesquisa das células-tronco. Então essa liberação tem esse fator, também importantíssimo, que é de abrir a possibilidade de cura para as pessoas de baixa renda com a incorporação dessas conquistas ao sistema de saúde pública no futuro, evidentemente.

 

Denise – Agora, Andrei, o que você diz para quem está nos ouvindo nesse momento, que acompanhou essa discussão, e muitas vezes até sem entender com muita clareza o que aquilo lhe diz respeito diretamente, porque se por um lado a gente viu muita gente acompanhando atenta, por outro lado também foi comum ouvir comentários: “Ah, para que está se falando tanto disso, o que eu tenho a ver com isso?” O que você diz para quem está nos ouvindo agora?

 

Andrei – É verdade, porque em primeiro lugar, isso é uma coisa natural, as pessoas não pensam que tal coisa vá acontecer com elas. Ninguém vive na expectativa de um dia ter um câncer ou de um dia sofrer um acidente automobilístico e ficar paraplégico. Mas isso acontece com qualquer um. Então é preciso que as pessoas se conscientizem que essas questões dizem respeito a todos e não apenas àqueles que estão diretamente envolvidos com a questão. Quando nós, pessoas com deficiência, lutamos pela acessibilidade nos transportes coletivos, nos prédios públicos e reclamamos da falta disso, nós não estamos sendo chatos apenas em proveito próprio, porque essa questão beneficia toda a sociedade, que um dia vai ficar idosa, um dia uma mulher vai ficar grávida, um dia alguém vai tropeçar e quebrar o dedão e vai precisar de uma acessibilidade maior, ou coisas mais graves, evidentemente. O mesmo acontece com essa questão da pesquisa de células-tronco embrionárias. É uma questão que vai beneficiar a humanidade e não só àqueles que têm doenças graves ou que virão a ter. Então, essa consciência é que falta na sociedade e, infelizmente, é um processo cultural perverso que leva as pessoas com deficiência e as pessoas com doenças graves para a invisibilidade. Porque, vamos dizer assim, você não olha e não enxerga naturalmente essas questões porque você as recusa naturalmente, você não as quer para você. Mas acontece que é uma realidade e nós devemos enfrentá-la, encarar os problemas e ajudar a resolver como os ministros do Supremo Tribunal fizeram aprovando a pesquisa.

 

Denise – Andrei Bastos, assessor de comunicação do IBDD, Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Quero agradecer mais uma vez a sua participação aqui, no Redação Nacional. Muito obrigada e um bom dia para você.

 

Andrei – Um bom dia pra você, Denise, e um bom dia para os ouvintes da Rádio Nacional e eu é que agradeço a oportunidade.


Rio, 26 de maio de 2008