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Rei em terra de cego não é deficiente

Marcio Tavares d’Amaral
Rio, 20 de agosto de 2009

“Veja bem o que está fazendo”. “Não vejo um palmo adiante do nariz”. “Veja lá!””Não se enxerga?” - Nossa cultura, pelo menos na parte dela que vem dos antigos gregos, dá uma extrema importância ao ato de ver, olhar e reconhecer. É fundamento da verdade. É condição para a eficácia da linguagem. Não admira que os grandes jogos gregos, antes de serem desportivos, eram teatrais, encenados.

Toda essa hiperimportância do ato de ver, da visão, é carregada por um antigo verbo grego, teô, eu vejo. Não é um verbo banal. Dele decorrem palavras-chave da nossa cultura até hoje. Teoria. Teorema. Teatro. Sobre- tudo, sobre todos, teos, o deus. Deus, o sumamente evidente, o que há para ser visto: daí decorre a natureza quase sagrada da visão.

Outra palavra é mystos. (São extraordinárias as palavras! Olhadas de perto, dizem muito mais do que falam quando as usamos só para comunicar.) Mystos é o olhar que se fecha para ver melhor. Fecha-se sobre o apenas presente para poder ver o extra-ordinário, o interior essencial, também o passado e o futuro. Tirésias, o adivinho da tragédia do Édipo, era cego. Via o que ninguém via, porque, fechado para o simplesmente ordinário, conhecia o passado e o futuro. Dessa palavra decorre mística. Também é uma palavra sagrada.

Ver e não ver não são, portanto, estritamente referências a um sentido do corpo. São palavras radicais.

Hoje, esquecidos dessa alta origem, e depois de uma longa história, viemos a tratar os cegos e as pessoas de baixa visão como deficientes. É uma palavra perversa, que inverte irrefletidamente a sacralidade de ver e não ver. É uma palavra discriminatória. Deve ser combatida. Mas combatê-la é uma atitude política. Não é uma ação de simples “boa consciência”. Requer conhecimento, experiência das pessoas (conceitos não bastam, e às vezes atrapalham).

É aí que entram em cena os “monoculares”. Recente súmula do STJ os considera deficientes. Isto significa que podem disputar vagas com cegos nos concursos que reservam vagas para pessoas com deficiências. Quem entra? O monocular, alguém tem dúvida? Porque o monocular, e isso diz tudo, vê. Em terra de cego quem tem um olho é rei. Justamente. É disso que se trata.

Com todo o respeito, os juízes do Superior Tribunal de Justiça criaram uma nova discriminação. O cego, a pessoa com baixa visão, têm óbvias dificuldades de emprego. Com os monoculares essa dificuldade se torna virtualmente insuperável.

Porque, diga-se de uma vez, os monoculares não são deficientes. Vêm como os antigos gregos. Não são cegos como os antigos místicos. Eu sou monocular. Sempre soube que só enxergava com um olho, claro. Mas não sou uma pessoa com deficiência visual. Porque além de não conseguir ver filmes em três dimensões, nunca tive nenhuma dificuldade na vida por causa do meu olho que não vê. Vejo meus alunos, seus sorrisos, suas testas enrugadas de preocupação. Vejo as pessoas que amo. Vejo as injustiças que se praticam. Olho para elas. Não vou disputar vagas com pessoas que enxergam com as mãos. Não é justo. Isso salta aos olhos.

* Marcio Tavares d’Amaral é presidente do IBDD e Professor Emérito de História dos Sistemas de Pensamento da UFRJ.


 
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